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Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1997
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Correo: Janaina Galhardi
Estado da Obra: Corrigida

O playboy e o beb!
Lisa no havia planejado se apaixonar. Talvez nada tivesse acontecido, se ela no houvesse aceitado o convite para acompanhar Angus Hamilton em uma viagem por um 
mundo diferente, glamouroso e com um estilo de vida sofisticado. Tornou-se uma amante acidental, acabando "acidentalmente grvida". S que Angus estava mais interessado 
em aproveitar a vida do que em formar uma famlia Mas, de repente, um homem que estava mais acostumado a abrir garrafas de champanhe do que a trocar fraldas viu-se 
preparando a chegada do filho... E adorando cada minuto! Teria a paternidade transformado o dedicado playboy em um marido perfeito?


Cathy Willians
Amante Acidental

CAPITULO I

Chovia muito naquele dia. Lisa Freeman ajustou o pesado casaco ao redor do corpo, arrependida por no haver escolhido um agasalho impermevel para sair de casa. 
O tecido grosso de seu sobretudo parecia capaz de absorver todas as gotas de gua que caam sobre ele, tornando-se mais frio e pesado a cada segundo.Ressentia-se 
tambm por haver rejeitado a idia de tomar um txi at o aeroporto. Optara por economizar um pouco de dinheiro ao tomar um nibus, que por sua vez se atrasara.
Estava encharcada da cabea aos ps, executando o agonizante ritual de olhar para o relgio a cada minuto, temendo perder o vo.
Para completar seu desespero, o nibus a deixara muito longe do terminal de embarque, e bem em meio  chuva. Teria de caminhar bastante, sem chapu nem capa, carregando 
uma mala e a grande bolsa a tiracolo.
Seu nico consolo era estar prestes a embarcar para longe daquele clima horroroso. Se a previso do tempo para os dias que se seguiriam estivesse correta, a Espanha 
ofereceria muito mais calor e menos chuva do que a Inglaterra.
Claro que no encontraria um ambiente quente e ensolarado como o dos trpicos, mas ainda assim estaria longe do cu acinzentado e das nuvens pesadas, que insistiam 
em se desmanchar sobre o territrio ingls na forma de constantes enxurradas.
Contudo, viu-se dominada por uma onda de ansiedade no momento em que avistou o terminal de passageiros entre as pesadas gotas de chuva. Jamais deixara a principal 
ilha britnica antes, e nem sequer imaginava como seria voar sobre o mar.
Parecia difcil precisar quando comeara a gostar da idia de viajar nas frias. Quando criana, jamais pensaria nisso. Passara a maior parte do tempo arrumando
malas e pacotes, conforme seu pai mudava de emprego e de cidade periodicamente. Acostumara-se a morar em modestas casas alugadas, tendo de se mudar toda vez que
tudo comeava a se ajustar.
Aquilo no parecia mago-la. No at o momento em que alcanara idade suficiente para compreender que jamais conseguiria fazer amigos permanentes. Descobrira ento 
que a nica companhia com a qual poderia sempre contar seria a dela mesma.
Seus pais j haviam falecido, mas as marcas daquele estilo de vida nmade ainda se mostravam muito profundas em seu ser. Fora preciso um perodo de mais de trs 
anos morando na mesma casa, trabalhando no mesmo emprego e cultivando amizades, para que a possibilidade de viajar para longe durante as frias pudesse ser cogitada.
At ento, mesmo tendo vinte e quatro anos de idade, e vivendo em uma poca em que as viagens internacionais haviam se tornado acessveis, Lisa jamais chegara 
alm da Esccia, onde morara quando menina. Sempre julgara mais til gastar seu dinheiro na casa ou em outro empreendimento.
Contentava-se em admirar os livretos de viagens das companhias de turismo, considerando aqueles parasos tropicais como um sonho distante, pois os preos exorbitantes 
de tais viagens transcendiam at o mais otimista de seus oramentos anuais.
Alm disso, ao longo dos trs ltimos anos, seu pequeno carro popular havia demonstrado a incrvel capacidade de perceber a chegada do perodo de frias. Como 
que temendo ficar estacionado na garagem por duas ou trs semanas, o veculo apresentava sempre algum defeito, precisando de reparos imediatos que acabavam minando 
suas reservas monetrias.
Mas dessa vez tudo parecia estar dando certo, exceto pela falta de colaborao da natureza.
Carregando a mala, que parecia ficar mais pesada a cada passo, continuou a caminhar em direo ao terminal, atravessando o estacionamento. A chuva se tornara to 
espessa que ela mal conseguia enxergar o gigantesco edifcio  sua frente.
Ao mesmo tempo, lembrava-se do envelope que chegara pelo correio, trs meses antes, mudando seu conceito de sorte.
Jamais ganhara nada em sorteios ou rifas, e ser premiada com um pacote turstico internacional fora algo incomum e animador. Parecia muito mais divertido saber 
que no estaria gastando suas reservas naquele passeio.
Flagrou-se sorrindo, ao descer da calada para atravessar a ltima rua que a separava do terminal de embarque do aeroporto. Porm, o que se seguiu foi uma confusa 
seqncia de eventos.
Teria sido o asfalto molhado e escorregadio? Havia se distrado a ponto de no olhar para onde ia? Ou o motorista estava to sem viso quanto ela prpria, devido 
 chuva?
Tudo o que sabia era que um carro estava vindo em sua direo, como se estivesse em meio a uma cena em cmera lenta, pois no momento em que chegou ao meio da rua, 
pde ver o motorista fazer uma careta e frear instantaneamente. Observou tambm a aproximao do veculo, deslizando pela pista molhada, emitindo um som horripilante 
de arrastar de pneus.
Mas a manobra no foi eficaz o suficiente para impedir o atropelamento. Mesmo tendo freado e desviado no ltimo instante, a lateral do carro chocou-se contra a 
perna de Lisa.
Ao cair no cho, sentindo-se momentaneamente imobilizada, tudo em que ela conseguiu pensar foi na viagem de frias que estava prestes a perder. Passara os trs 
meses anteriores sonhando com aquilo, e era difcil aceitar que o destino lhe pregara uma pea to cruel. Nem lhe ocorrera pensar que tivera muita sorte de no haver 
acontecido nada mais grave.
Sentindo uma incrvel dor na perna, no conseguia fixar a ateno no que estava vendo a seu redor. Algumas cenas imaginrias de um avio partindo sem ela se misturavam 
 viso de pessoas que se aproximavam, olhando-a com curiosidade. Ou seriam olhares de preocupao? Tambm estava ficando difcil pensar.
Soltando um gemido alto, tentou mover a perna atingida e deu-se conta de que no podia faz-lo. Ao olhar para o lado, descobriu que sua mala abrira-se em meio  
confuso, expondo seus pertences aos olhares alheios e tambm  chuva.
 J chamei a ambulncia pelo telefone do carro  disse uma voz masculina prxima  cabea dela, levando-a a erguer o rosto lentamente.  O socorro dever chegar 
aqui em minutos.
Os transeuntes comearam a se aglomerar ao redor do local, mesmo sob o aguaceiro torrencial que parecia no querer cessar. Com um gesto firme e autoritrio, o homem 
que acabara de lhe falar fez com que todos se afastassem, e em instantes a maioria se dispersou.
Lisa o olhou com ateno. Ele tinha cabelos negros, que mesmo cados sobre a testa, por causa da chuva, pareciam ser macios e convidativos a uma carcia. Estranhamente, 
o fato de estar se encharcando no pareceu incomod-lo.
Aquele rosto de traos marcantes trazia uma expresso decidida. Era o homem mais bonito e charmoso que Lisa j vira at ento. Aqueles olhos absolutamente azuis 
lembravam o oceano de um lugar paradisaco. E aquele semblante inesquecvel parecia o de algum nascido para comandar.
 um dos seguranas do aeroporto?  perguntou ela, observando os lbios dele se curvarem em um breve sorriso.
Pareo-me com um dos oficiais que trabalham aqui?  indagou o desconhecido.
Sua voz era muito agradvel. Possua um tom grave e profundo, e denotava um leve tom de divertimento que lhe parecia natural, aumentando ainda mais seu charme. Pelo 
menos era o que ela estava conseguindo perceber, em meio  dor e  confuso de se ver deitada em plena rua, sob uma tempestade intensa.
Foi ento que ouviu o som agudo e frentico da sirene da ambulncia cada vez mais prximo, acompanhado de um novo rudo de pneus escorregando sobre o cho molhado.
        Espero que eles parem a tempo  disse ela, mes
mo tendo seu senso de humor esmaecido.
Afinal, no parecia justo perder a oportunidade que ganhara naquelas frias.
O atraente desconhecido continuava curvado sobre Lisa. Como pudera confundi-lo com um dos seguranas? - perguntou-se ela. Aquele terno cinza-escuro parecia ser 
carssimo, e ele falara algo sobre ter um telefone no carro, e no rdio, como seria de se esperar de um funcionrio daquele lugar. Intrigada por haver deduzido 
algo to ilgico, atribuiu a responsabilidade de seu engano  dor que estava sentindo.
Porm, o mais impressionante foi v-lo rir de sua piada irnica. Mesmo com uma tontura crescente dominando-a, Lisa foi capaz de identificar a sinceridade e o prazer 
embutidos naquele sorriso. O charme do desconhecido chegava a ser desconcertante.
Logo distinguiu vozes que se aproximaram depressa. Mos hbeis e delicadas examinaram sua perna ferida, sem machuc-la e, em seguida, tudo se acelerou, como em um 
filme com cenas entrecortadas.
Analgsicos foram ministrados e, instantes depois, Lisa foi transportada sobre uma maca para dentro da ambulncia.
Quando voltou a abrir os olhos, encontrava-se em um pequeno quarto, pintado de branco. Estava deitada sobre uma cama estreita com grades laterais. Havia um mdico 
curvado sobre ela e um termmetro colocado no canto de sua boca.
Sou o Dr. Sullivan  apresentou-se o simptico mdico, sorrindo, enquanto a enfermeira, que estava do outro lado da cama, retirou o termmetro, examinando-o.  Lembra-se 
de como chegou aqui?
Fui atropelada  respondeu Lisa, com um sorriso desanimado, lembrando-se de que deveria estar em outro pas quela altura.
 Voc sofreu uma fratura na perna  informou o mdico.  E ganhou alguns hematomas que parecero muito piores do que realmente so. Creio que nem preciso dizer 
que teve muita sorte em no haver sofrido conseqncias piores.
 Para ser sincera, iria me sentir muito mais afortunada se no tivesse sofrido o acidente  declarou Lisa.
O mdico pareceu surpreso, antes de sorrir educadamente e responder:
        Claro que sim, minha cara.  Olhou para o relgio.  Mas, infelizmente, essas coisas acontecem. Ficar conosco pelo menos duas semanas, durante a reconstituio 
ssea. A enfermeira mostrar as facilidades das acomodaes, e mais tarde passarei aqui outra vez, para examin-la.
Assim que o mdico saiu do quarto, a enfermeira mostrou onde ficava o boto de chamada e o interruptor de luz. Em seguida, explicou as normas do local, apontou 
o controle remoto da televiso sobre a mesinha-de-cabeceira e, antes de se retirar, falou:
H um visitante esperando para v-la.
Visitante? Quem sabe que estou aqui?
A enfermeira sorriu com malcia, o que deixou Lisa ainda mais curiosa.
        Na verdade, pensei que fosse seu namorado. Ele seguiu a ambulncia at aqui e no saiu da sala de espera nem por um momento.
Se a jovem funcionria do hospital no houvesse sado assim que acabara de falar, teria ouvido vrias perguntas, como, por exemplo, onde estava sua mala. Porm, 
Lisa no teve muito tempo para pensar sobre isso, pois o visitante logo entrou no quarto.
Era o mesmo homem que a ajudara no estacionamento do aeroporto, dominando a situao e solicitando uma ambulncia.
Enquanto o observava fechar a porta atrs de si, Lisa sentiu uma estranha onda de satisfao. No mesmo instante, surpreendeu-se sentindo um certo acanhamento, e 
teve de se esforar para convencer-se de que estava sendo tola.
Era uma mulher adulta, e no mais uma criana tmida, nem uma adolescente sem a menor experincia sobre o sexo oposto. No era mais aquela garota que desviava o 
olhar, envergonhada, toda vez que um rapaz demonstrava algum interesse por ela. Dizendo a si mesma que tais anos haviam ficado para trs, reuniu autoconfiana e 
sentiu-se bem mais segura.
Observando-o furtivamente, acompanhou os movimentos do visitante, at que ele colocou uma cadeira ao lado da cama e sentou-se de frente para ela, comeando a falar 
em um tom de voz cativante:
        Creio que no fomos devidamente apresentados quando nos falamos da ltima vez. Antes de mais nada, diga-me como est se sentindo.
Ele havia se enxugado, ou talvez sua roupa houvesse secado naturalmente, durante a espera. Seus cabelos eram mesmo negros e levemente ondulados, parecendo dotados 
de um brilho prprio.
Estou bem  respondeu Lisa.  Sinto que meus movimentos esto bastante limitados, mas creio que vou acabar me acostumando, quer goste ou no.
Menos mal. De qualquer maneira, sou Angus Hamilton  declarou ele, estendendo a mo para cumpriment-la.
Ao toc-lo, Lisa sentiu como se uma pequena descarga eltrica percorresse seu corpo, levando-a a recolher o brao para baixo do lenol assim que teve chance. Deveria 
ser algum efeito dos analgsicos e do susto que levara com o acidente, concluiu. No era possvel que um homem conseguisse afet-la a tal ponto.
Lisa Freeman  murmurou ela, corando levemente.  A enfermeira disse que voc veio para c aps o acidente, e que ficou esperando. No precisava haver se incomodado 
tanto.
Oh, sim, precisava. Foi meu motorista quem a atropelou. Acredito que ele no a enxergou a tempo. Quando a viu saindo da calada, por entre os carros estacionados, 
ele bem que tentou frear, mas... O resto voc j sabe.
Angus a olhava com tanta intensidade que Lisa no sentiu vontade de interromp-lo. Poderia ouvi-lo o dia todo sem se cansar.
Acho que eu deveria ter usado a faixa de pedestres  confessou, com franqueza.  Estava atrasada e, graas  pressa, no consegui nem mesmo chegar ao terminal de 
passageiros. Por falar nisso, sabe o que aconteceu com minha mala?
Antes de seguir a ambulncia, recolhi suas coisas e as trouxe comigo. J esto com a enfermeira. Estava indo pegar um avio, no ? Para onde ia viajar?
Madri, depois Barcelona e mais algumas cidades tursticas da Espanha.
Em condies normais, Lisa era uma pessoa muito contida e controlada. Mas, naquele instante, pareceu-lhe impossvel evitar que algumas lgrimas se acumulassem em 
seus olhos.
        Sinto muito  disse Angus, deixando-a ainda mais embaraada ao retirar um leno do bolso e oferecer a ela.  No fao idia do que acontece em uma situao 
como essa, mas tenho certeza de que h alguma indenizao para compensar o que ocorreu. J reservei este quarto exclusivamente para voc, e vou me assegurar de 
que lhe seja ressarcido qualquer prejuzo monetrio que tenha sofrido, ou que venha a ocorrer, por conseqncia do acidente.
Voc reservou este quarto?  indagou ela, arregalando os olhos.
Sua estada aqui ser por atendimento particular.
Mas isso no era necessrio...
Olhando ao redor, Lisa percebeu que era mesmo estranho que estivesse sozinha em um quarto com tantas comodidades. No chegara a lhe ocorrer que algum estaria pagando 
por tal conforto.
E o mnimo que posso fazer  declarou ele.
Bem,  mais do que suficiente  respondeu Lisa, encarando-o.  Eu jamais poderia aceitar uma indenizao por um acidente que aconteceu, em parte, por minha prpria 
culpa. A responsabilidade no foi sua, e sim daquele comeo de dilvio que nos encharcou no estacionamento.
Mesmo assim, insisto em ajudar  disse Angus, parecendo mais perplexo do que zangado.
No quero receber nenhum dinheiro de voc.
E quanto s suas frias? E a viagem?
Lisa se imaginou ao lado de uma piscina de hotel, e sentiu uma ponta de ressentimento, mas prosseguiu:
Era mesmo muito bom para ser verdade  disse ela, suspirando.  Ganhei aquele pacote turstico, sabe? Respondi a um concurso em uma revista e venci. A viagem era 
o prmio mximo. Como pode ver, no implica nenhuma perda financeira para mim.
Ganhou?  perguntou ele, parecendo surpreso com a idia de algum responder a um concurso daqueles.
        Tal reao a deixou na defensiva.
        Posso muito bem pagar por uma viagem como essa, assim que tiver vontade, mas j que ganhei, decidi aproveit-la.
Ao olh-lo com mais ateno, Lisa percebeu que aquelas roupas, o relgio e os sapatos indicavam se tratar de algum com um bom poder aquisitivo.
Alm disso, aquele aspecto refinado e elegante, associado  autoconfiana e ao poder de comando que ele demonstrara, levou-a a deduzir que Angus pertencia a algum 
crculo social mais elevado, do qual ela jamais tivera oportunidade de participar.
No era o tipo de pessoa que ela conheceria em circunstncias normais, e talvez nem quisesse que isso acontecesse. Nunca sentira vontade de ter contato com pessoas 
ricas.
O que  uma razo a mais para...  continuou Angus, pretendendo insistir.
No h a menor chance de que eu aceite seu dinheiro! Sei que errei e que fui descuidada naquela travessia. Minha conscincia jamais ficaria em paz se eu aceitasse 
uma indenizao por isso.
Mas posso ajud-la sem problemas. Acabarei encontrando uma maneira de pagar por seu prejuzo.
No.
Voc  sempre teimosa desse jeito?  perguntou Angus, demonstrando impacincia.  Devo admitir que  uma experincia nova para mim tentar gastar meu dinheiro, e 
ele voltar diretamente para o bolso, com complexo de rejeio.
Enquanto falava, ele sorriu, observando-a com curiosidade. Todo aquele charme estava levando Lisa a sentir uma leve tontura. Jamais conhecera algum como Angus Hamilton.
Seria por isso que ela estava tendo aquela reao ou tratava-se apenas de um efeito dos analgsicos? Aps pestanejar algumas vezes, voltou a encar-lo. Sentiu uma 
espcie de presso no peito, mas permaneceu em silncio.
Voc trabalha?  indagou Angus, curioso.  Pagam bem o suficiente para que possa ter outra oportunidade de viajar em breve? Quando foi a ltima vez que deixou 
o pas em frias?
Posso at ser teimosa, mas no sou bisbilhoteira.
Todo mundo  um pouco curioso...  justificou Angus, recostando-se na cadeira e entrelaando os dedos atrs da cabea.
A expresso dele mostrava divertimento e interesse sincero, mas aquele sorriso maravilhoso tinha o poder de faz-la perder o flego. De sbito, adquiriu uma atitude 
defensiva.
         mesmo? Em que mundo estranho voc vive - em que todos se intrometem na vida uns dos outros e aceitam dinheiro de qualquer um, no se importando com a 
origem nem questionando o motivo?
Angus parecia mais interessado e curioso a cada instante. Aquela expresso de divertimento comeou a deix-la impaciente. Sentiu o rosto enrubescer, vendo-se como 
uma adolescente em seu primeiro encontro, aguardando com ansiedade que tudo desse certo.
Espero que no esteja rindo de mim  disse, por fim.
Rindo de voc?  indagou ele, arqueando as sobrancelhas.  Rir de algum com uma ndole to admirvel? De jeito nenhum!
Sim, ele estava rindo de sua aparente ingenuidade com relao a valores, concluiu Lisa. Com certeza, viviam em mundos muito diferentes.
 Bem, em resposta  sua pergunta,  claro que tenho um emprego...E sim, creio que poderia arcar com outra viagem daqui a algum tempo. Nunca viajei para fora do 
pas, muito menos em frias. S morei algum tempo na Esccia com meus pais...
Nunca viajou em frias?  indagou Angus, incrdulo.
No.  algo to raro assim?
        Falando em linhas gerais, sim,  muito raro.  Naquele momento, o olhar de Angus pareceu o de um cientista descobrindo uma forma de vida julgada extinta. 
A sensao que aquilo provocou em Lisa foi to estranha que sentiu una indefinvel vontade de se explicar.
Meus pais viajavam muito. Meu pai no gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar, nem minha me. Sempre preferiram viver se mudando para lugares novos e diferentes.
No deixa de ser uma atitude egosta, levando-se em conta que tinham uma criana. Voc  filha nica? Teve irmos e irms?
No. Mas meus pais eram pessoas maravilhosas!  afirmou ela, na defensiva.
Fazia muito tempo que chegara  concluso de que seus pais haviam sido um pouco inconseqentes. Mas como poderia culp-los? Eram pessoas amveis e gentis, e a haviam 
educado muito bem. Alm disso, jamais planejaram ter filhos, e Lisa aparecera acidentalmente, quando os dois estavam entrando na casa dos quarenta anos.
        E agora, sua primeira oportunidade de sair do pas a levou diretamente para um leito de hospital  constatou Angus, franzindo o cenho e balanando a cabea 
negativamente.
O que mais impressionou Lisa foi a habilidade que ele demonstrou em mudar de assunto e desarm-la por completo.
        Acho que o destino est tentando me dizer algo - completou ela, sorrindo.
Do lado de fora, a noite j havia comeado. Atravs da janela, era possvel ver o cu escurecido, sem nenhuma estrela ainda visvel. A luz fluorescente do quarto 
ressaltava os traos bem marcados do rosto de Angus e fazia seus olhos azuis cintilarem de modo misterioso.
S ento, Lisa deu-se conta de que no havia se olhado no espelho desde o acidente. Poderia estar com hematomas no rosto, ou com os cabelos desarrumados, e nem saber 
disso...
Por um momento, foi dominada por uma onda de embarao. Ficar com essa dvida diante de algum to atraente era como se encontrar com seu dolo do cinema e s ento 
notar que se esquecera de usar maquiagem e de se pentear.
Onde voc trabalha?  perguntou ele.
Est mesmo interessado? No precisa sentir-se obrigado a me fazer companhia por educao.
Teimosa e argumentadora  declarou Angus, sorrindo de maneira provocante.
No sou nem uma coisa nem outra. S no quero que se sinta preso a esta situao, porque seu motorista me atropelou.
Nunca fao nada que no queira, e com certeza no demonstro interesse por algum, se no h um desejo sincero em mim.
Se  assim, tudo bem. Trabalho em uma casa especializada em botnica, chamada Estufas Arden.
Lembrou-se de que teria de ligar para Paul, seu patro, e contar o que havia ocorrido. Tinha certeza de que ele ficaria to desapontado com o acidente quanto ela 
prpria. Paul sempre a repreendera por trabalhar demais, mas ela se acostumara com isso. Sempre amara plantas e flores. Se no houvesse precisado comear a trabalhar 
aos dezessete anos, teria se formado em botnica na universidade.
Porm, era sua vez de perguntar algo.
E onde voc trabalha?
Em uma firma de publicidade. A Hamilton Scott.
Que interessante.  Lisa sorriu com educao.  E o que faz l?
Est mesmo interessada? No precisa se sentir obrigada a perguntar isso por educao  revidou Angus, imitando-a de forma engraada, enquanto a observava enrubescer. 
 Sabia que voc fica muito mais charmosa quando est assim, corada?
O flerte a desarmou por completo. No estava acostumada com aquele tipo de comentrio vindo de um homem. Alm do mais, Angus era da rea de propaganda, a indstria 
do brilho e da iluso, ao passo que ela vivia apenas para as plantas e para a rotina que criara em torno de si mesma.
        Sou o dono da empresa  continuou Angus, falando com indiferena.  Meu pai a fundou, fez algum sucesso e ento afundou-a por completo, cometendo uma srie 
de erros administrativos. Desde a morte dele, venho tentando reconstruir tudo. Acho que tenho me sado bem.
O sorriso de Angus era mesmo devastador.
Que bom.  Foi tudo que Lisa pde pensar como resposta.
Acha mesmo? Creio que no ficou muito impressionada.
O que deveria ter me impressionado?
Eu, por exemplo  declarou Angus, fitando-a diretamente nos olhos.
Lisa concluiu que aquela demonstrao de interesse era sincera, mas nem um pouco pessoal. Parecia apenas curiosidade a respeito de uma pessoa de outro crculo social, 
com o qual ele no estava acostumado a conviver. No havia a inteno de um flerte real. Todo aquele charme deveria ser algo to natural para Angus quanto respirar. 
Teria ele noo do efeito que exercia sobre as mulheres? Com certeza, sim.
Sempre me impressiono quando as pessoas conseguem alcanar seus objetivos  afirmou Lisa, com um ar calculadamente indiferente.  Meu chefe, Paul, abriu sua primeira 
loja apenas com um emprstimo bancrio, e muita vontade de trabalhar. E conseguiu um tremendo sucesso, pois hoje a rede das Estufas Arden cobre boa parte do pas. 
Por outro lado, o que mais me impressiona  o que as pessoas realmente so, e no o que alcanam na vida.
 mesmo?
Pode-se ter um belo carro, uma grande casa e dinheiro para viajar com conforto  continuou ela , mas se no se tratar de uma pessoa boa, sincera e honesta, o resto 
perde o sentido, no concorda?
E dinheiro no  importante para voc?
Ao v-lo arquear as sobrancelhas, mais uma vez Lisa teve a impresso de estar sendo observada com curiosidade, e no com interesse ou algum tipo de atrao mais 
forte. Em lugar de se sentir aliviada, uma ponta de frustrao comeou a pesar em seu peito.
S preciso do suficiente para continuar minha vida. Ganho bem mais do que isso em meu trabalho.
No tem a pretenso de ganhar mais?
No. Suponho que o mesmo no ocorre com voc?  perguntou a ele.
Pelo contrrio, tambm acho que no preciso de mais dinheiro  respondeu Angus, com ar pensativo, como se jamais houvesse parado para ponderar sobre aquela questo. 
 J tenho mais do que o suficiente. O que me estimula  superar as marcas que estabeleci para mim mesmo. Mas, se me permite mudar de assunto, quanto tempo vai 
ficar aqui?
Lisa se surpreendeu, sentindo-se frustrada por no poder continuar a ouvi-lo. Sem perceber, fora ficando boquiaberta enquanto o ouvia falar. S lhe restava torcer 
para que o brilho em seu olhar no fosse muito denunciador.
Ficarei aqui por cerca de duas semanas. Com sorte, at menos. Eu preferiria me recuperar em casa.
E existe algum que possa cuidar de voc? Talvez seu namorado?
A expresso perscrutadora daqueles olhos azuis a deixou inquieta.
        Oh, no  respondeu Lisa, tentando parecer casual.  No no momento.
A impresso que tentara demonstrar era a de que estava vivendo uma pausa entre um suposto romance que acabara de terminar e outro que viria a seguir. Aquilo estava 
to distante da verdade que ela mesma quase riu ao se ouvir.
Robert, seu ltimo namorado, trabalhava em uma empresa do ramo automobilstico. Ele queria se casar, ter uma casa trrea, sonhava com filhos, e pensava em fazer 
churrasco todos os finais de semana.
Abalada diante de tal proposta, Lisa terminara o namoro. Nem ela mesma sabia ao certo o motivo que a levara quilo. Tudo o que sempre desejara fora estabilidade, 
e isso chegara a ser oferecido por Robert. S no conseguira se imaginar vivendo na mesma casa que ele. Dois anos haviam se passado desde ento, e ela ainda permanecia 
sozinha.
Meus amigos moram perto de casa e podero me ajudar, caso eu precise. Mas tenho certeza de que posso me arranjar sozinha.
E mesmo?
Claro que sim  afirmou ela, surpresa com a dvida no olhar dele.  Sempre me cuidei sozinha.
Imagino que sim  murmurou Angus, pensativo.  De qualquer forma, isso me parece bastante triste.
Dizendo isso, levantou-se e vestiu o palet, que havia deixado sobre o encosto da cadeira.
No sinta pena de mim  retorquiu ela, em um tom mais amargo do que desejara demonstrar.  E apenas um fato da vida: uma pessoa tem de aprender a se manter com seus 
prprios ps.
Acredita realmente nisso ou este  seu prmio de consolao por uma vida solitria?
Lisa ficou sria e desviou o olhar em direo  janela, sentindo um calor aquecer sua face.
        No que isso me diga respeito,  claro  continuou Angus, em um tom de voz mais gentil.
Ele prosseguiu, voltando a falar sobre o quanto sentia pelo acidente, e insistiu novamente para que ela aceitasse a indenizao. Entregou-lhe um carto com vrios 
telefones para que pudesse localiz-lo, se fosse preciso, tanto no carro como no escritrio ou em casa. L constava o nome da empresa, o dele, diversos nmeros 
de telefone e um logotipo que no dava a menor idia do que poderia significar, mas que mesmo assim era lindo.
Exatamente como Angus. Um lindo e misterioso desconhecido fora de seu alcance.
Ligue-me, caso venha a mudar de idia sobre a indenizao. Estou mais do que disposto a lhe pagar  disse ele, erguendo a mo em um gesto que a dissuadiu de interromp-lo. 
 Dinheiro pode no significar nada para voc, mas, depois de tudo isso, seria timo que passasse frias em algum lugar, com as despesas correndo por minha conta.
Sei, sei...  respondeu ela, colocando o carto sobre a mesinha-de-cabeceira.
Parece que no tem a menor inteno de avaliar minha oferta  constatou ele.
Acertou.
Ao ouvi-la confirmar a suposio, Angus balanou a cabea negativamente, inconformado. Virando-se, caminhou at a porta.
Estarei fora do pas nos prximos dez ou quinze dias, seno viria visit-la com freqncia. E no venha me dizer que isso no seria necessrio, seno vou at a 
e toro seu pescoo  brincou Angus.
Acho que eu no conseguiria sobreviver a um pescoo torcido e a uma perna quebrada ao mesmo tempo  respondeu Lisa, sorrindo.
Estivera na companhia dele por pouco mais de meia hora, mas ao v-lo com a mo na maaneta da porta, prestes a sair, sentiu uma inexplicvel sensao de solido. 
Foi algo to surpreendente que a desorientou por um momento.
No era possvel que estivesse desejando que ele ficasse. No fazia sentido. Sabia que se tratava de uma mera visita de cortesia, feita por uma pessoa com a conscincia 
pesada. Mesmo assim, compartilhara com ele algumas confidencias sobre sua infncia e sobre fatos que nem mesmo seus amigos mais prximos sabiam. Teve a impresso 
de que uma parte de si mesma seguia junto com Angus.
Adeus, Lisa Freeman.  uma mulher inesquecvel.
Adeus, Angus Hamilton  respondeu ela, sem conseguir pensar em um comentrio que pudesse adicionar  despedida, como fizera ele.
Depois de v-lo fechar a porta, imaginou-o partindo e chamando a ateno de todas mulheres do hospital, com aquela beleza mscula e irresistvel.
Concluiu que estava sentindo mais a falta de uma presena masculina do que imaginara. Jamais percebera aquilo at ento, pois julgara que sua vida estava completa. 
Tinha um apartamento modesto, mas confortvel, que comprara com o que recebera do seguro da morte de seus pais. Tambm conseguira comprar um carro popular, guardando 
o dinheiro das horas extras que fizera no trabalho anterior ao da estufa.
Cultivara um crculo estvel de amizades, mantido com todo zelo, devido ao trauma de nunca haver parado por tempo suficiente em um mesmo lugar para fazer boas amizades, 
durante toda a infncia.
Jamais se considerara uma pessoa solitria. Mas quem poderia dizer ao certo? Talvez fosse e nem o soubesse.
No momento, porm, s o que tinha a fazer era chamar a enfermeira e pedir mais analgsicos, pois a dor em sua perna estava chegando ao limite do suportvel. Ao se 
virar, viu o carto de Angus e guardou-o dentro da gaveta. Ali, ele estaria fora de vista e no lhe traria lembranas constantes daquele modelo de homem perfeito.
Depois de tomar os analgsicos, ligou para os amigos e contou sobre o acidente, mas sem despertar preocupaes. Recebeu votos de melhora e promessas de que em breve 
receberia visitas, flores e chocolates.
Em momentos assim, Lisa lamentava o tempo perdido durante a infncia e a adolescncia, quando fora privada do contato com pessoas de sua idade, com quem pudesse 
estabelecer relaes duradouras. Seus amigos mais ntimos haviam sido conquistados aps a morte de seus pais.
Depois de falar com Paul, e descobrir que em seu primeiro dia de frias o trabalho j estava atrasado nas mos dele, recostou-se e passou o restante da noite pensando 
em belos olhos azuis...

CAPITULO II

Passaram-se mais de dois meses at que a perna de Lisa voltasse a uma condio quase normal. Naquele meio tempo, Paul a confinara s tarefas que ele classificava 
como "repousantes".
Essa era a definio que ele dava para servios burocrticos, como cuidar de papis e dar telefonemas. Caixas e mais caixas de documentao precisavam ser ordenadas, 
mas Lisa se sentia grata por pelo menos estar ocupada.
Era raro que se lembrasse das frias perdidas, mas quando isso acontecia, consolava-se por saber que em um ano ou dois iria se dar ao luxo de viajar por conta prpria.
Mas o mesmo no estava acontecendo em relao a Angus Hamilton. Algo parecia estar errado, pois j deveria haver se esquecido dele. No entanto, a imagem daquele 
rosto atraente continuava vivida em sua memria.
No contara a ningum sobre ele. Nem a Paul nem aos seus amigos. Tratava-o como um segredo pessoal. O instinto a avisara de que, se falasse nele, reforaria aquelas 
teimosas lembranas.
De qualquer maneira, Angus jamais reapareceria em sua vida. Alm do mais, qual seria o valor em despertar a curiosidade das pessoas sobre algo que se passara de 
uma forma to rpida por sua vida?
J estava mais do que convencida de tudo isso quando, passados mais de trs meses aps o acidente, encontrou uma carta dele em sua correspondncia. O choque foi 
to intenso que suas mos ficaram midas de suor no mesmo instante.
Deduzira de quem era aquela caligrafia firme antes mesmo de abrir o envelope, que chegara sem remetente.
A mensagem era curta e ia direto ao assunto. Ele iria fazer um cruzeiro com alguns amigos e a estava convidando para ir junto. " claro...", leu Lisa, ao se sentar 
no sof, "...que voc nem ir pensar em recusar meu convite. Considere a aceitao como um ato de caridade de sua parte, para aliviar o peso da culpa na minha conscincia, 
com relao ao acidente", e como observao final, ele completou: "Espero que j esteja novamente sobre seus prprios ps".
Claro que ela no tinha a menor inteno de aceitar tal convite. Mentalmente, comeou a enumerar as razes pelas quais deveria recusar. Para comear, no era de 
seu feitio fazer algo daquela natureza, de forma impensada. Espontaneidade era algo saudvel, mas passara muitos anos sendo puxada pela fora inexorvel da impulsividade 
de seus pais, e deduzira que era mais seguro pensar bem antes de agir. S assim se conquistava uma forma coerente de vida.
Estava com dezessete anos quando seus pais morreram, e sonhava com aquilo que as outras jovens mais odiavam: uma casa onde passar muitos anos, sem a menor perspectiva 
de se mudar.
Nunca desejara que sua vida fosse governada pela impulsividade. Nunca. Era muito perigoso.
Mas ento o rosto de Angus invadiu sua mente, como uma doce e desejvel lembrana. Ao mesmo tempo, recordou-se da expresso de pesar naquela face mscula, ao saber 
que ela costumava se cuidar sozinha.
Seus pais tambm tinham aquela mesma reao, quando percebiam como a filha ficava desorientada cada vez que eles se mudavam. E sempre questionavam como haviam podido 
gerar uma pessoa to tmida e recatada, sendo que ambos eram to expansivos e espalhafatosos.
Se pelo menos pudesse mostrar a eles que havia mudado... Mas era tarde demais. Pelo menos com relao a seus pais.
De repente, flagrou-se aceitando o convite de Angus.
Antes que tivesse tempo para se arrepender, ligou para o telefone citado na carta e falou com a secretria pessoal dele, que j havia sido instruda para orient-la 
sobre a viagem. Arremessando ao vento sua lista de prs e contras, deixou-se levar por algo mais forte do que o prprio bom senso. S no sabia que fora era aquela.
Entretanto, trs semanas depois, estava pagando o preo por seu momento de impulsividade e fraqueza. Tornara-se tensa, sabendo que no conseguiria se divertir com 
a viagem que estava por fazer.
O que a consolava era saber que haveria dezenas de pessoas a bordo, o que lhe daria oportunidade de escapar da companhia de Angus e de seus amigos, caso tudo desse 
errado. Ningum acharia estranho, pois era comum se ouvir falar de mulheres solitrias viajando em cruzeiros tropicais.
Lisa fechou os olhos quando o avio decolou em direo a Barbados, onde deveria se encontrar com o grupo do cruzeiro, que talvez j estivesse em curso.
Dali em diante, s lhe restava seguir as instrues que recebera da secretria de Angus.
Em Barbados, fez a conexo de vo para St. Vincent. O cenrio era to espetacular que Lisa at se esqueceu de que deveria estar nervosa. Maravilhou-se com a vista 
daquele lindo mar, azulado e brilhante, filetado por praias maravilhosas de areia clara, que reluziam sob o sol tropical.
Do lado de fora do aeroporto de St. Vincent, um txi previamente pago a esperava, com uma placa de identificao. Tudo conforme informara a mesma eficiente secretria 
de Angus, que lhe entregara todas as passagens de ida e de volta, com as devidas instrues.
O motorista a saudou com gentileza e se encarregou da bagagem, aps acomod-la no banco traseiro do luxuoso carro.
Mesmo tendo se trocado durante a conexo em Barbados, e colocado uma blusa de seda e uma bermuda leve, Lisa no se preparara para todo aquele calor. Por sorte o 
ar-condicionado do veculo era eficiente.
Para onde estamos indo?  perguntou ao motorista, assim que este entrou no veculo.
Em direo  costa, na regio sul. O hotel no fica muito longe daqui.  um lugar lindssimo.
Ficando em silncio durante todo o trajeto, Lisa observou a paisagem sem conseguir relaxar. Estava ansiosa demais. Mesmo assim, no pde deixar de notar o brilho 
de todo aquele verde e a riqueza daquela vegetao. A vida nos trpicos era mesmo exuberante.
Mas o que iria dizer a Angus quando o encontrasse? No estava acostumada aos crculos sociais mais sofisticados. Com certeza, depois de algumas horas, deixaria 
de ser considerada novidade e o interesse que ele demonstrara quatro meses antes, no hospital, iria desaparecer.
O txi a deixou na frente do hotel, onde um carregador cuidou da bagagem. Vrias pessoas passavam por ali no momento, todas em trajes caros e adequados ao clima, 
rindo muito e parecendo se divertir. A maioria trazia mquinas fotogrficas e filmadoras a tiracolo. Estariam todos no cruzeiro? Seria aquela uma parada entre 
portos, ou o comeo da viagem? No havia como saber, a no ser seguindo em frente.
Avistou Angus ao lado do balco da recepo e notou quando ele levantou-se depressa para vir receb-la.
Estava sozinho, felizmente, e usava um traje esportivo leve e muito elegante. Conforme o observava se aproximar, Lisa no pde deixar de notar os olhares femininos 
que ele atraa. Era como se nenhuma mulher conseguisse deixar de admir-lo.
        Pensei que voc fosse desistir na ltima hora  disse Angus, sorrindo com satisfao.
Estava certa de que ele no parecia to alto no hospital. Deveria ter um metro e oitenta e cinco de altura, e sua pele estava mais bronzeada, contrastando com os 
olhos azuis.
        Acredito que sua perna j esteja completamente recuperada do acidente, no?  continuou ele, assim que trocaram um aperto de mos.
Uma recepcionista entregou a chave para ela, e o carregador comeou a conduzi-los at o quarto.
        Sim, j me recuperei  respondeu ela.  Muito obrigada por... isto.  Abriu os braos, indicando tudo que os cercava.   muita gentileza de sua parte.
Angus a fitou intensamente e, para seu alvio, o carregador os interrompeu para mostrar-lhes o quarto.
 Tudo transcorreu bem na viagem para c?  perguntou ele, curioso, assim que ficaram sozinhos.
 Sim, obrigada. A viagem foi tima.
 No precisa ser to polida assim  disse Angus, com ar divertido.
Sinto muito. Exagerei?
Com certeza. No a trouxe de to longe para jog-la aos tubares. Fique tranqila.
Oh, sim. Mas acho que isso nem me ocorreu  respondeu Lisa, aventurando-se a sorrir.
Assim est bem melhor  falou ele, sorrindo tambm.  Est aqui para se divertir. Foi por isso que veio, no foi?
Sim, claro.
Estou surpreso que tenha vindo, e no me importo em admitir. Depois do que me disse no hospital, sobre no aceitar nada de ningum, pensei que fosse rejeitar a proposta 
de viajar em frias por minha conta.
Contendo a tentao de agradecer e de se desculpar mais uma vez, Lisa percebeu nas palavras dele algo que a deixou atnita. E se Angus estivesse contando com sua 
recusa pelo convite? Seria possvel que sua aceitao houvesse se tornado um imprevisto na vida dele?
Eu... aceitei em um impulso  admitiu, abaixando o olhar.
Fico contente em ouvir isso. Deve estar cansada da viagem. Afinal, foram dois vos seguidos. No precisa se preocupar em sair para jantar, se no quiser. O servio 
de quarto  timo. Pea pelo telefone, e traro tudo o que desejar. Recupere-se do cansao, pois zarparemos amanh cedo.
        Oh, sim. Sua secretria me passou o itinerrio  respondeu Lisa, abrindo a bolsa e comeando a procurar o papel com movimentos quase frenticos, terminando 
por derrubar algumas coisas no cho.
Ambos se curvaram ao mesmo tempo para apanhar o que havia cado, e suas cabeas quase colidiram. Lisa se afastou, enrubescida.
        Desculpe-me  murmurou ela, envergonhada, ao pegar o que ele havia recolhido.
No precisa ficar nervosa  disse Angus, em um tom de voz gentil.
No estou nervosa!
Claro que est  insistiu ele, parecendo surpreso por ela haver negado algo to bvio.  Est prestes a sair em uma viagem de frias em um iate, com um grupo de 
pessoas que no conhece e que jamais viu na vida.  natural que fique nervosa.
Confusa, Lisa arregalou os olhos e o encarou.
Iate? Pensei que estaramos em um cruzeiro!
Sim, um cruzeiro de iate  declarou ele, franzindo o cenho ao observ-la.  Est tudo bem? Parece um pouco plida...
Oua. Vamos esclarecer uma coisa. Que tipo de viagem iremos fazer? Vamos ou no embarcar em um navio?
Navio? Do que est falando?
Em sua carta estava escrito que seria um cruzeiro, e tive a impresso de que...
De que estaramos em um transatlntico?  completou ele, esboando um sorriso.  No. Creio que houve um mal-entendido. No h nenhum navio. At onde sei, no h 
muito sentido em tentar se afastar da multido e cercar-se de uma multido diferente, no meio do oceano, sem ter como sair dali. Na verdade, acho que nada poderia 
ser pior do que isso, concorda?
"No!", pensou Lisa, desejando poder dizer isso em voz alta. Nada poderia ser pior do que a perspectiva de estar em um iate com um grupo de estranhos, todos amigos 
entre si, menos ela.
Jamais deveria ter vindo. Se eu soubesse disso antes...
Ora. No se acovarde.
Realmente no creio que possa ficar. Foi um engano. No  culpa sua. Eu  que deveria ter perguntado, mas no me ocorreu algo assim. Sinto muito, mas  isso.
No seja tola.
No estou sendo tola!  esbravejou ela.
Olhe para mim. Agora responda: pareo o tipo de pessoa que  inconseqente a ponto de convid-la para sair do pas, coloc-la em uma situao difcil e observ-la 
sofrer, enquanto afio meu gancho e dou risadas, bebendo rum em um caneco?
No, no. Sei que no  nada disso, mas no consigo me imaginar nesse iate. Iria me sentir uma intrusa entre voc e seus amigos.
Que tolice. Intrusa por qu? perguntou Angus, caminhando at a janela e abrindo a cortina.
Por invadir sua privacidade. Ser uma reunio entre amigos.
Olhe este quarto. O que acha dele? E desta paisagem? J viu algo assim? Olhe este pr-do-sol. Gosta disso?
Sim, claro que gosto.  tudo lindo. Estonteante. Maravilhoso  falou ela, com ar desanimado.
Nunca viajou em frias antes, Lisa. Voc mesma me disse isso  falou Angus, com gentileza.  Quando agendei esta viagem, o fiz pensando em voc. Por que no coloca 
sua timidez de lado por um momento e tenta encarar as prximas duas semanas como o que elas realmente sero? Garanto que ter uma revelao.
Sei que s me convidou por sentir pena de mim.
Acho que essa colocao  inadequada.
Mas  basicamente isso, no?
Senti apenas que lhe devia algo, por t-la privado de suas to sonhadas frias. Isso no  crime, ?
Angus possua uma forma sedutora de escolher as palavras e de diz-las. Todo aquele poder de persuaso a estava afetando.
No  crime, eu sei, mas entenda meu ponto de vista.
Sei que est preocupada.
Gostaria que parasse de concluir os raciocnios por mim  protestou Lisa.  Posso muito bem me expressar sozinha.
Ele riu, fitando-a com intensidade.
Est com medo de encarar meus amigos, s porque nunca os viu.
Voc no se sentiria assim?  desafiou ela. 
No.
Desculpe-me, mas acho que no trouxe nenhuma medalha de bravura na minha bolsa!
Ao v-lo se aproximar, Lisa sentiu-se to alarmada que quase recuou para o canto do quarto.
Assim  bem melhor  disse ele.
O qu?
Um pouco de fria, em lugar de assumir passivamente que tudo deu errado, sem nem mesmo tentar. Bem, amanh todos pediremos o desjejum em nossos quartos, depois 
nos encontraremos no iate ao meio-dia e meia. Quer que venhamos busc-la ou voc prefere andar por a e depois chegar l sozinha?
Quantas pessoas estaro no iate?  indagou ela, franzindo o cenho.
Apenas seis. Ns dois, um cliente, que por acaso  meu melhor amigo, sua esposa e filha, e tambm uma prima distante da minha famlia.
Prima distante?
Isso. H algum grau de parentesco em um lugar qualquer de nossas rvores genealgicas, mas  to distante que nunca conseguimos ter certeza de qual  a ligao 
correta. Ento nos tratamos por primos. E ela est na viagem como um favor de famlia aos pais dela.
Oh.
E voc ainda no respondeu  minha pergunta.
Que pergunta?
Sorrindo com sinceridade, Angus balanou a cabea negativamente.
Por Deus, Lisa, espero que um dia me leve at l.
At onde?
At o mundo em que voc vive. Com certeza no  o planeta Terra.
Muito obrigada pelo comentrio delicado  retorquiu ela, com ar indignado.
Isso no foi um insulto - garantiu ele, ainda sorrindo.  Gostaria de saber como consegue se manter sobre seus prprios ps.
Teria ele decorado cada frase que haviam dito no dia do acidente, quatro meses antes? - Lisa se perguntou.
Irei encontr-los no iate.
Est bem  concordou Angus, passando a explicar como se chegava l.
Em seguida, ele se despediu com um sorriso e a deixou s.
Ainda trmula, Lisa mal conseguiu acreditar que estivesse ali. Sentando-se na cama, tentou colocar os pensamentos em ordem. Parecia impossvel que um acidente do 
destino a houvesse levado at aquele lugar.
Na manh seguinte, aps o desjejum, Lisa vestiu um discreto biquni preto e foi at a praia. Escolhendo uma rea deserta, estendeu a toalha e cobriu-se de protetor 
solar, antes de se deitar.
Assim que olhou para aquele lindo cu azul, qualquer arrependimento que ainda estivesse alimentando com relao  viagem simplesmente desapareceu.
Era impossvel ter pensamentos tristes diante de tanta beleza. O cu parecia imaculado. O mar calmo, de gua limpa e translcida, brilhava com um azul inacreditvel. 
A areia era branca e fofa, parecendo um convite para se deitar. O rudo das ondas era o som que se ouvia, misturado ao canto distante de alguns pssaros.
Estava totalmente relaxada, sabendo que teria mais de quatro horas livres at se apresentar ao iate. Foi ento que ouviu a voz de Angus.
        Deduzi que a encontraria por aqui. E bom tomar cuidado. O sol daqui  terrvel, principalmente para algum com a pele clara como a sua.
Lisa se sentou no mesmo instante, como se houvesse recebido uma descarga eltrica. Fitou aqueles olhos azuis que pareciam to brilhantes quanto o cu iluminado 
pelo sol.
Angus estava apenas com um calo de banho, e trazia uma toalha jogada sobre o ombro.
Abalada pela viso daquele peito nu, musculoso e bronzeado, desviou o olhar. Tentando parecer o mais natural possvel, falou:
Sei disso. Estou usando um protetor solar adequado.
Muito previdente.
Angus estendeu a toalha ao lado da dela, e deitou-se de lado.
        O que est fazendo aqui?  indagou Lisa, mantendo o rosto virado em outra direo e os olhos fechados, por trs dos culos escuros.
Estavam to prximos que era possvel sentir a respirao dele em sua face. A sensao era to envolvente e sensual que a impedia de pensar com clareza.
        Fui procur-la, mas no a encontrei em seu quarto. Ento deduzi que deveria estar aqui. Este lugar  lindo, no acha?  Estendendo a mo, retirou os culos 
do rosto dela.  Isso. Assim est melhor. Gosto de ver os olhos das pessoas com quem converso.
Pode fazer o favor de devolver meus culos? Ao encar-lo, descobriu-o sorrindo.
No vai voltar a coloc-los.
Isso  uma ordem?
Se fosse, iria me obedecer?
No.
        Foi o que pensei  falou ele, com tranqilidade. 
  por isso que vou guard-los por enquanto, se no se importa.
Lisa fitou-o nos olhos, com ar indignado, o que o levou a rir mais uma vez.
        Mas que grande variedade de expresses voc tem  continuou Angus, com ar de divertimento.  Qual sua idade?
Mesmo desejando responder que aquilo no era do interesse dele, Lisa no conseguiu faz-lo - Estava falando com seu anfitrio, e devia demonstrar um mnimo de 
educao.
Vinte e quatro.
Caroline est com dezenove, mas parece dcadas mais velha do que voc. Ah, no me olhe assim, isso foi um elogio.
Sinto muito, mas no fao a menor idia sobre quem voc est falando  disse Lisa, deixando claro que tambm no estava nem um pouco interessada em saber a resposta.
        Caroline  minha prima distante  explicou ele.
         Mantendo-se em silncio um instante, ela pensou no que iria encontrar pela frente. O poderoso cliente e amigo com sua esposa pretensiosa e uma filha precoce 
e mimada. Caroline, sofisticada e com histrico educacional e familiar, segura de si mesma e madura. Angus, esbanjando charme e autoridade. E ela prpria: a atropelada.
Por que veio at aqui?  perguntou, com polidez.  No precisa cuidar do iate? Certificar-se de que h suprimentos e combustvel? E se as cordas, peas e tudo o 
mais esto no lugar?
Espero que sua pergunta no esteja indicando uma dispensa polida da minha presena.
Isso nem sequer passou pela minha cabea.
Mas que alvio  ironizou Angus, fazendo um gesto teatral, antes de se sentar e ficar srio.  Na verdade, estava preocupado em saber se est tudo bem com voc.
Por que no estaria?
Digamos que parece estar receosa diante da perspectiva de se tornar cativa dos canibais que acha que convidei para esta viagem.
Muito engraado.
No, nem um pouco. Eu s queria encontr-la para deixar claro que s convidei pessoas gentis e que no precisa se preocupar com elas.
        Obrigada  respondeu Lisa, sentindo-se tola por estar quase hipnotizada pela aura de sensualidade que ele emanava.  Sinto por ontem  noite, mas fiquei 
bastante decepcionada com a descoberta do mal-entendido.
Percebi  murmurou Angus.  E espero que pare de agradecer e de se desculpar a cada instante.
Sinto muito  disse ela automaticamente, rindo ao perceber o que fizera.
Contou a seu chefe sobre a viagem?
Bem... Mais ou menos. Disse apenas que precisava de uma pausa para me recuperar, pois estava cansada demais. O que no deixa de ser verdade.
Mas no explicou detalhes. Acha que ele no entenderia?
E provvel que no. No condiz com meu comportamento normal.
Na verdade, Paul iria ficar em choque. Desde que a contratara, cinco anos antes, sempre admirara a retido e a capacidade dela de no se render a impulsos.
No est acostumada a se arriscar?  indagou Angus.
Acho que no  murmurou ela, desviando o olhar mais uma vez.
Invadi algum assunto pessoal? Por que  to misteriosa a seu prprio respeito?  perguntou ele, fazendo-a encar-lo com um leve toque de seus dedos no queixo delicado.
No sou misteriosa.
Deveria tentar se ouvir, uma vez ou outra. Talvez mude de opinio.
Ao v-la ficar em silncio, Angus devolveu-lhe os culos escuros e se levantou de repente, sacudindo a areia da toalha, antes de coloc-la de novo sobre o ombro. 
A leve contrao daqueles msculos foi suficiente para deix-la em uma espcie de transe de admirao.
Tem certeza de que sabe chegar ao iate?  perguntou ele, voltando a usar um tom casual.
Sei.
Ento devo v-la em torno das doze e trinta.
Sim, senhor  respondeu Lisa, prestando continncia e esforando-se para sorrir.
Olhando-a com ar pensativo, ele ficou alguns instantes em silncio, como se estivesse ponderando sobre algo que no pensara antes. Logo depois voltou a falar, franzindo 
levemente o cenho.
        Promete que no vai fugir em nenhum vo antes disso? No, no. Nem precisa responder. Sei que no vai fazer isso. Aposto que est to curiosa quanto receosa 
sobre o que vai acontecer. Por isso vai ficar.  uma experincia nova para voc. Tenho certeza de que no vai se arrepender. Acredite em mim.
Enquanto o observava se afastar, sem nenhuma pressa, desfilando aquele corpo monumental e perfeito pela praia semideserta, Lisa comeou a se questionar em pensamento. 
"Como ele pode ter tanta certeza? Eu mesma tenho minhas dvidas!"
CAPITULO III

Seria possvel que eu me tornasse uma pessoa diferente, se minha criao houvesse sido outra? - perguntara-se Lisa, ao longo dos anos. Porm, jamais encontrara 
tal resposta.
Sabia que o que mais fizera falta em sua vida fora um crculo estvel de amizades durante a infncia e a adolescncia. Mas nunca culpara seus pais por isso. Recebera 
deles todo o amor que qualquer filho poderia desejar. No tinham culpa se ela no possua aquele mesmo gosto por novidades.
Pelo que aprendera, as tendncias nmades com certeza no eram transmitidas por meios genticos.
Seu pai, um bilogo, tinha um estoque inesgotvel de curiosidade. A natureza, em todos seus aspectos, parecia ter o dom de fascin-lo. Aceitaria um emprego at 
como guarda-florestal, se isso o colocasse em contato com a vida selvagem e lhe desse a oportunidade de analisar novas formas de vida e de entender as antigas.
Certa vez, trabalhara durante dezoito meses na Esccia, junto  Fora Naval Escocesa, estudando biologia marinha. Aquela se tornara a maior paixo profissional 
de sua vida.
Para Lisa, fora a pior fase de que podia se lembrar. Ela tomava o nibus diariamente para ir  escola, sempre sob um cu acinzentado e sem vida. Lembrava-se da 
pequena sala de aula, assim como dos olhares desconfiados dos outros alunos, que a tratavam instintivamente com inadvertida crueldade, classificando-a de "forasteira".
Aquele comportamento se repetira no pequeno vilarejo onde moravam. Apenas quando estavam prestes a se mudar foi que ela conseguira ter alguns amigos. Ento tudo 
acabara, como sempre acontecia, em despedidas e promessas de contato que nunca duravam muito. Tudo aquilo no fizera bem ao seu instinto de manuteno social.
Enquanto caminhava pela marina, em direo ao iate, podia sentir a mesma presso no estmago que lhe fora comum no primeiro dia de aula, em cada nova escola. Uma 
sensao horrvel, que ela sempre tivera de encarar pelo menos uma ou duas vezes por ano.
Todos pareciam estar no convs, menos Angus. Contudo, algum deve t-lo chamado, pois ele apareceu como que por encanto. Ainda sem camisa, dirigiu-se ao ponto de 
embarque para receb-la.
Ao se aproximar dele, Lisa sentiu imediatamente a fora daquela presena enrgica.
Espero no estar atrasada  disse, assim que Angus estendeu a mo e pegou a mala dela, sorrindo com ar de divertimento.
Temos um programa de navegao, mas no somos obrigados a segui-lo  risca. Essa  uma das grandes vantagens de se sair de frias dessa forma. Ns a teramos esperado, 
se fosse necessrio.
Virou-se e colocou a mala no convs, estendendo a mo para ajud-la a embarcar. O gesto foi feito de uma maneira sedutora e provocante, como se ele a estivesse convidando 
para a cama, e no para subir a bordo do barco.
Sentindo que suas pernas no queriam colaborar, Lisa se esforou para seguir em frente sem fraquejar. Mas, assim que recuperou o equilbrio dentro da embarcao, 
soltou a mo dele com rapidez.
Aproximaram-se da proa, onde o pequeno crculo de amigos estava reunido. Todos com roupas de banho, deitados sobre espreguiadeiras, com copos de bebida ou de refresco 
nas mos.
Com um sorriso nos lbios, ela respirou fundo e acompanhou as apresentaes. Gerry, Lilly, a menina de nove anos, Sarah e, por fim, Caroline.
Agora vou mostrar a cabine a Lisa  anunciou Angus com presteza, antes de se virar para ela.  O que quer beber? Pensamos em nos refrescar e almoar aqui mesmo, 
antes de zarparmos.
Qualquer coisa  respondeu ela, com simpatia, tentando parecer natural.
Eu no deixaria essa opo em aberto  disse Lilly, rindo.  Meu marido pode interpretar isso como um convite para testar um de seus letais coquetis caseiros em 
voc, o que poderia estragar sua viagem.
Gerry riu tambm, e protestou diante do comentrio. Pelo menos o sorriso de Lisa se tornou natural antes de ela responder, observando o copo de Sarah, que parecia 
ser a nica bebida inocente sendo consumida.
Nesse caso, fico com um suco de frutas.
Sbia deciso  comentou Lilly.
Mas um pouco antiquada  acrescentou Caroline, que nada dissera desde que fora apresentara.
        Havia estendido a mo, mas nem se sentira na obrigao de sorrir, voltando a se ocupar de seu banho de sol assim que Lisa se afastara meio passo.
Se era prima de Angus, parecia difcil notar alguma semelhana. Tinha os cabelos quase brancos, de to loiros, e as sobrancelhas castanhas. A pele apresentava um 
bronzeado impecvel, mas podia-se notar que ela era naturalmente muito clara. S o que tinham em comum era a beleza extica.
        No a confunda, Caroline  advertiu Angus, colocando um leve tom de autoridade em seu jeito divertido.  Volte para seu banho de sol.
Caroline retirou os culos escuros e revelou lindos olhos verdes, que o fitaram de maneira fatal.
Tenho certeza de que Lisa no precisa de algum como voc para defend-la  disse a jovem loira, franzindo o cenho e se dirigindo em seguida para a recm-chegada. 
 Ou precisa?
Com certeza, no  respondeu Lisa, desconcertada.  Sempre fui capaz de cuidar de mim mesma.
Assim  que se fala  disse Gerry, em tom de aprovao, logo atrs dela.  Uma verdadeira mulher do sculo vinte!
Lisa se virou para ele, aliviada, e observou o sorriso provocante de Lilly, que completou:
        E o mais impressionante  ouvir tais palavras da boca de meu marido, um verdadeiro homem antiquado do sculo dezoito!
Todos riram da brincadeira, enquanto Sarah, sem desviar os olhos de seu livro de aventuras, sorriu de maneira tranqila, como faziam os adultos ao achar graa da 
infantilidade das crianas.
        Ento, minha cara, que tipo de suco prefere?  perguntou Gerry, levantando-se com preguia, parecendo no se importar com o detalhe de estar muitos quilos 
alm de seu peso.
Talvez aquela fosse uma das conquistas masculinas ao se passar dos quarenta anos. Deixar de se preocupar com a vaidade, pensou Lisa.
H opes de escolha?  indagou, surpresa.
Laranja, melancia, manga, abacaxi e tangerina.
Oh! Suco de manga seria maravilhoso  optou ela, empolgada.
 mesmo? Ento vou fazer um para mim tambm. Acho que nunca bebi suco de manga at hoje  informou Gerry, fazendo uma careta engraada.
Posso lev-la para dentro agora?  interrompeu Angus, arqueando uma sobrancelha.  Ou a discusso sobre o suco vai continuar?
No precisa ser to sarcstico, Angus  disse Lilly, fazendo-o rir.
Lisa sentiu a mo dele em seu brao e, no instante seguinte, estava sendo conduzida para baixo, embarcao adentro.
O iate era enorme e tinha uma decorao carssima. Ela observava tudo com curiosidade e, ao parar diante de uma cabine, perguntou:
Este iate  seu?
Sim, . Gostou?
Claro,  incrvel! Parece uma casa. Nunca pensei que iates pudessem ser to grandes por dentro.  Sentindo o rosto corar, olhou-o com firmeza.  Acha que sou diferente 
das pessoas com quem est acostumado, no ? Devo ser mesmo, pois no estou habituada com nada disso.
Estavam muito prximos um do outro no estreito corredor que levava s cabines. Aquela situao a deixava sem controle. Parecendo no ter percebido nada, Angus abriu 
uma porta e ambos entraram. Ele colocou a mala sobre a cama e voltou para a entrada, apoiando-se no portal.
E ento?
Em uma coisa voc acertou  Lisa apressou-se em dizer.  Tudo isto est sendo mesmo uma revelao para mim.
Isso  timo.
Vou desfazer as malas agora, sim?
A pergunta deveria ter sido um lembrete de que ela queria ficar sozinha, mas Angus pareceu no notar. Apenas colocou as mos nos bolsos da bermuda e sorriu, de 
forma indolente.
        Foi to ruim quanto temia?
Incomodada por deixar transparecer sua vulnerabilidade, Lisa apenas deu de ombros.
O que quer dizer isso?  indagou ele, imitando-a no gesto.
Lilly e Gerry so pessoas adorveis.
E Caroline?
        Ela no se parece nem um pouco com voc.
        Limitara-se a responder apenas aquilo por mera educao, pois no gostara nem um pouco da prima dele. Havia uma aura de falsidade e de egosmo irradiando 
ao redor de Caroline.
        Voc ter de desculp-la  falou Angus.  Como j disse, ela s est aqui como um favor aos pais dela, que a consideram uma pessoa muito difcil de se lidar.
        E acharam que voc  a pessoa ideal para domestic-la?
Ele riu diante das implicaes daquela observao.
        Nada to otimista, posso garantir. Nem sequer me considero apto  tarefa de endireitar a vida das pessoas. S no deixe que ela a incomode com aquele tipo 
de comentrio srdido, sim?
Obrigada pelo conselho  respondeu Lisa, com frieza, comeando a se cansar de ser considerada indefesa.  Manterei isso em mente.
No tive inteno de aborrec-la.
Claro que no. S estava demonstrando gratido. Muito obrigada.
Oh, pelo amor de Deus!  resmungou Angus, passando a mo pelos cabelos, com impacincia.  Quando  que vai parar de ser to grata?
Mas  como me sinto.
Desfaa as malas  disse ele.
Sem perceber, Lisa se aproximou dele e pousou a mo sobre aquele brao forte, apenas por um segundo.
No fique bravo.
Ento pare de agir como se eu estivesse fazendo um favor gigantesco ao convid-la para viajar comigo. Pelo que me lembro, no era bem gratido o que estava sentindo 
ontem, quando descobriu que estaria em um iate, num cruzeiro de seis pessoas, em vez de seiscentas.
Sim,  verdade. Mas, mesmo assim, foi muita cortesia de sua parte me convidar para vir junto.
Fui o responsvel por estragar suas frias anteriores, lembra-se?
No foi bem assim. Alm disso, a maioria das pessoas no se preocuparia em me recompensar desta forma.
 Talvez porque a maioria das pessoas no tem o dinheiro para faz-lo  murmurou Angus, observando-a, esperando pela prxima reao dela.
        Como posso argumentar quanto a isso?
Lisa o encarou e desviou o olhar, sentindo que estava respirando depressa e comeando a suar nas mos.
Por que tinha aquele tipo de reao quando estava perto dele? Seria algo fsico ou intelectual?
Sempre soubera que era uma mulher inteligente. Nesse caso, por que ficava to excitada na presena dele, se sabia tratar-se de algum alm de seu alcance? Era bvio 
que viviam em mundos diferentes, e seria muito tola se achasse que poderiam unir suas realidades.
 por isso que est reagindo dessa forma? Acha que minha riqueza a coloca em algum tipo de desvantagem? Ou  porque est insegura sobre si mesma?
No estou insegura!  negou ela.  Como pode dizer uma coisa dessas, se mal me conhece?
O silncio de Angus pareceu uma cano de vitria em meio  discusso.
E isso no  da sua conta  murmurou Lisa, cruzando os braos e afastando-se dele.  Fui convidada para vir at aqui e aceitei seu convite. Fora isso, minha vida 
no lhe diz respeito.
Voc consegue se abrir com algum, ou est sempre se escondendo nessa carapaa de silncio, deixando o resto da humanidade conduzir o rumo do mundo?
Posso desfazer minhas malas agora?
Assim que tiver respondido  minha pergunta  exigiu Angus.
- Voc  muito curioso  disse ela.  No gosto de ser objeto de curiosidade. No me interessa quanto dinheiro tenha. J disse que riqueza no determina o valor 
de uma pessoa para mim. Mas  claro que aqui, sou eu quem est fora do meio. No sei como agir, nem o que esperam que eu diga. Nunca precisei conviver nesse tipo 
de ambiente.
        O que acha de ser voc mesma?
 Pensei que no gostasse disso, j que sendo eu mesma acabo me tornando misteriosa e reservada.
Touch!  concluiu Angus, sorrindo.  Agora vou deix-la em paz para que desfaa sua mala. Vista uma roupa de banho e suba quando estiver pronta.
Era o que eu pretendia fazer. Ou melhor, sim senhor, capito!
Desse jeito vou acabar pensando que voc me considera um ditador. No quero que isso acontea.
Como queria que ela o considerasse, ento?
Ao sentar-se na cama, j sozinha, pensou mais sobre a questo. Talvez Angus quisesse que ela o considerasse como um benfeitor? Um heri? Ou um homem?
Ento comeou a desfazer a mala, sem querer ter chance de pensar mais sobre aquilo. A ltima coisa que pretendia era ver Angus como homem. J era suficientemente 
difcil resistir quele charme intenso e quele corpo msculo e viril.
Ao voltar ao convs, minutos depois, encontrou seu copo de suco colocado sobre uma mesinha, infelizmente ao lado de Caroline. Havia tambm uma bandeja de sanduches, 
e todos j haviam comido.
Deitados ao sol, o grupo havia se rendido ao calor. Sarah estava  sombra, cochilando. Lilly parecia absorta na leitura de um livro, fazendo alguns comentrios 
sobre o assunto que Angus e Gerry discutiam, no ponto mais afastado do convs.
Assim que se sentou para pegar o suco, ouviu a voz de Caroline, quase em um murmrio.
Achei que vocs dois demoraram muito l dentro. Angus s ia lhe mostrar a cabine.
Hum?  Lisa se voltou para a loira fatal. 
O que estavam fazendo?  indagou Caroline, rindo de maneira hostil.
Fazendo? Nada. Por qu?
Cus, ser que Angus costumava levar para a cama qualquer mulher que ficasse sozinha com ele por mais de trs segundos? - Lisa pensou em perguntar.
A loira deu de ombros e fez uma expresso de indiferena, espalhando mais bronzeador pelo corpo.
S estava pensando.  que Angus precisa de proteo.
 mesmo? Sinto muito, mas no foi bem isso o que reparei.
Ele me explicou por que a convidou para o cruzeiro  disse Caroline, em tom baixo.
E mesmo?
Sim. Algo sobre George t-la atropelado no estacionamento do aeroporto. Ele ficou com pena e a convidou para nos acompanhar.
O que foi muita gentileza da parte dele  respondeu Lisa, tentando se manter calma e lembrar-se de que era apenas uma hspede naquele iate.
Concordo plenamente. Por isso mesmo no quero v-la tirando vantagem disso.
Por que no vai direto ao ponto? Se  que existe um. No gosto muito de jogos desse tipo.
Caroline se virou de lado para encar-la e prendeu os culos escuros no alto da cabea.
        O ponto  que Angus  uma presa muito interessante, e eu no gostaria de v-la tendo segundas intenes com relao a ele.
A acusao parecia to infundada que Lisa demorou um minuto para perceber que no se tratara de uma brincadeira.
        Nesse caso, deixe-me tranqiliz-la. Seu primo est perfeitamente a salvo de mim. No me importa o quanto ele seja desejvel pelos seus padres, mas achei 
seu comentrio um verdadeiro insulto.
A expresso da loira demonstrou que ela pretendia transformar a conversa em uma pequena discusso, mas Sarah despertou e comeou a brincar perto delas, chamando 
Lilly para ver o que estava fazendo.
A conversa se generalizou, e Caroline voltou a se recostar na espreguiadeira, retomando seu banho de sol.
Grata pelo que acontecera, Lisa foi at a ponta da proa para olhar o oceano. Angus e Gerry haviam se dirigido para a cabine de comando e estavam conduzindo o iate 
lentamente para alto-mar.
Lilly se aproximou e se debruou sobre o parapeito da proa, ao lado de Lisa. As duas comearam a falar sobre trivialidades. Em certo momento, o assunto voltou-se 
para Angus.
Ele passa a maior parte do tempo viajando para fora do pas  confidenciava Lilly, no momento em que ambas ouviram a voz dele.
Espero que no estejam falando de mim. E muito feio fazer comentrios sobre o anfitrio na ausncia dele.
A esposa de Gerry riu, virando-se para Angus.
Voc deveria ficar grato. S estava contando as coisas boas a seu respeito.
Isso  verdade?  perguntou ele, voltando-se para Lisa e sorrindo com ar desconfiado.
Sim, com certeza  confirmou ela, sorrindo tambm.  Acabei de saber que voc  muito trabalhador e que passa a maior parte do tempo de um lado para o outro, viajando 
a negcios.
Descrito assim eu acabaria sendo confundido com uma formiga  disse Angus, rindo e olhando para a velha amiga, ao fingir um certo ar de protesto.
        Acho que posso apontar algumas diferenas bsicas  respondeu Lilly, afastando-se e rindo alto.
Ela  muito divertida, no?  perguntou Lisa, encarando-o.
Sim. Nos conhecemos h muito tempo.  uma amizade antiga.
Algo com o que sempre sonhei.
Ao falar, ela virou-se para olhar o mar. No queria contar nada pessoal a ele, mas aqueles impulsos pareciam incontrolveis.
Sonhou em me conhecer h muito tempo?  provocou Angus.
No estava me referindo a isso!
Ora. Sei o que quis dizer  explicou ele, sorrindo com compreenso e se recostando tambm no parapeito, ao lado dela.
Ela achou melhor mudar de assunto o mais depressa possvel.
Quanto tempo ainda falta para aportarmos outra vez?
No muito.
Costuma viajar assim todos os anos, com seus melhores amigos?
Apenas de um tempo para c. Amizades, nesse crculo social, precisam ser muito bem selecionadas e cultivadas.  preciso muita habilidade e treinamento para ser bem-sucedido. 
Mas, como voc mesma disse, essa  uma arte da qual no precisou at hoje. Imagino que seria mesmo intil em uma estufa de plantas  disse Angus, tentando dirigir 
a conversa para assuntos relacionados a ela. Porm, provocou uma reao imediata de fuga.
Com certeza. O mar daqui  lindo, no? Meu pai trabalhou na Esccia algum tempo, mas aquela regio nem se compara a esta.
Imagino que no. O que ele fazia?
Era bilogo.
E sua me?
Era a esposa de um bilogo.
E voc era a filha de um bilogo.
Acertou em cheio!  concordou Lisa, forando outra mudana de assunto.  Sabe, o rnar da Esccia  assustador, mesmo quando est calmo.
E o daqui  azul, brilhante e convidativo, mas no pense que no h perigos escondidos por toda parte.
Ouvi Lilly explicando isso para Sarah.
Sim, elas falam muito sobre isso. Sabe, com o tipo de vida que seus pais levavam, no entendo por que no a enviaram para um colgio interno. Seria uma boa oportunidade 
de ter um grupo de amigos e um lugar estvel para morar. .
Eu odiaria um internato. Alm disso, quando meu pai estava exercitando sua faceta de bilogo marinho, ensinou-me muito sobre os oceanos. Foi uma das fases mais felizes 
da minha vida. No sei por que insiste em pensar que tive uma infncia ruim.
Ora, no foi isso o que eu quis dizer. Seu interesse por plantas vem do gosto de seu pai pela vida selvagem?
Acho que sim. Nunca pensei muito sobre isso. Por que est me fazendo todas essas perguntas? No lhe fiz nenhuma at agora.
        Pois sinta-se  vontade para faz-las  falou Angus, esbanjando charme.
        No quero fazer nenhuma. No estou interessada.
Ao falar, Lisa olhou sobre o ombro dele e avistou Caroline, deitada ao sol. Com certeza a loira acabaria tendo uma insolao, se no parasse de vigi-los.
Hum... Onde esto Lilly e Sarah?  perguntou Lisa, olhando em volta.
Esto no deque inferior, em algum  lugar. A menina no pode ficar tempo demais exposta ao sol e ao mormao marinho, e eles no querem que ela se sinta sozinha. 
Mas, responda-me mais uma coisa: por que no foi para a universidade?
Lisa suspirou. No era nada agradvel ser investigada daquele jeito. Sentia-se como uma cobaia sob a mira de um microscpio.
Se quer mesmo saber, meus pais morreram quando eu estava no colegial, e mal pude complet-lo. Tive de comear a trabalhar e me sustentar. Tudo o que realmente precisava 
era de um lar estvel e de um bom emprego. Consegui isso e estou feliz.
Compreensvel.
Oh, que bom que pensa assim  retrucou ela, com sarcasmo, virando-se para encar-lo.  Sinto-me bem melhor. Mas, e voc? Parece-me que gosta muito de citar minhas 
inadequaes. Existe algo que o faa sentir-se deslocado?
No  respondeu ele, lentamente.  Acho que no.
Que sorte a sua, no? Passeando pela vida em um carro com motorista, viajando de um pas a outro para encontros importantes, fazendo cruzeiros particulares em seu 
prprio iate, quando bem entende... Creio que haja muitas mulheres tambm, todas lindssimas e ansiosas de conquist-lo. O que mais est faltando para completar 
sua vida?
Se decidira demonstrar toda sua indignao, Lisa deveria estar preparada para sustentar aquela conversa at onde quer que fosse. S que no tinha tanta certeza 
de que conseguiria isso. Felizmente, porm, o barco diminuiu a velocidade, e eles repararam que estavam se aproximando de Bequia*, a primeira parada do cruzeiro.
Lilly subiu para o convs, trazendo Sarah consigo. Aproximaram-se lentamente, esboando sorrisos inocentes.
No pense que esta conversa est terminada  sussurrou Angus, em um tom que somente ela pudesse ouvir.
Isso  uma ameaa?
Urna promessa  garantiu ele, colocando-se em movimento para preparar a atracagem.
Caroline no se moveu at que o barco parasse por completo, quando ento se levantou e colocou uma blusa de seda sobre o biquni.
Sua falta de excitao demonstrava que estava acostumada com viagens daquela natureza. Ou talvez, em seu crculo social, no fosse permitido demonstrar qualquer 
exploso emocional, por algo to simples quanto um cruzeiro por ilhas tropicais.
Lilly informou Lisa de que ficariam duas noites em Bequia* e ento seguiriam viagem. Recebera o conselho de levar apenas o mnimo necessrio para poder tomar banhos 
de mar e se bronzear. Se precisasse de algo mais, bastaria voltar para o barco e pegar.
Colocou o que julgava necessrio em sua bolsa menor e acompanhou o grupo at o hotel. Fizeram o percurso em dois txis. Por sorte, ficara junto de Lilly e de Sarah, 
enquanto Gerry, Angus e Caroline seguiram no outro veculo No trajeto, explicou algumas coisas sobre plantas tropicais pare Sarah, que parecia haver nascido com 
uma queda por estudos da natureza. Talvez viesse a se tornar uma biloga, no futuro.
Quando se encontraram no saguo, Caroline anunciou que iria se bronzear  beira da piscina.
Tanto sol vai lhe fazer mal  avisou Sarah, em tom preocupado.
Talvez faa mal para voc  respondeu Caroline, em tom de escrnio , mas no para mim. Quero voltar a Londres em condio de mostrar um bronzeado digno de quem 
passou duas semanas nos trpicos.
        Mas a cor de sua pele j est maravilhosa!  exclamou Lilly, recebendo um dar de ombros indiferente.
Assim que a loira fatal se afastou, indo para o quarto se preparar para outro banho de sol, Angus se virou para Lisa e falou:
E ento? O que pretende fazer agora?
Acho que vou para a praia. Quer vir comigo, Sarah?  convidou ela, dirigindo-se  menina.
Claro que sim!
        Mas apenas por meia hora  advertiu Lilly.
As duas acenaram em concordncia e saram juntas.
Logo depois, enquanto colhiam conchas, a garotinha
reclamou:
        Mame se preocupa demais comigo.
        Claro que sim. Trata-se de sua me, e ela a ama. A minha vivia me alertando sobre picadas de insetos e plantas venenosas.
A menina riu, como se aquilo fosse inimaginvel e terrvel.
Mais tarde, ao voltar para o hotel, flagrou-se olhando na direo da piscina, ansiosa de avistar Angus.
Mesmo sabendo que no deveria estar interessada, ficou frustrada por no encontr-lo, e mais ainda por estar curiosa.
O melhor que poderia fazer era dar um mergulho no mar. O cu estava limpo e a areia morna. Depois de vestir sua roupa de banho, seguiu na direo mais deserta da 
praia, caminhando at que no houvesse mais ningum em seu campo de viso.
Ento entrou no mar e se ps a nadar. Primeiro se afastou da praia e depois comeou a acompanhar a orla. Ao chegar a uma boa distncia, parou para admirar a paisagem. 
Jamais vira algo to belo. O branco amarelado da areia dividia a linha do mar da vegetao exuberante. O cu parecia um gigantesco cenrio, perfeitamente azul.
Ao nadar de volta e sair da gua, encontrou Angus sentado sobre a toalha dele, com os braos cruzados e um ar muito srio.
O que pensa que est fazendo?  ele perguntou com impacincia, levantando-se assim que a viu se aproximar.
O qu? Do que est falando?
Responda!  exigiu Angus.
        Nadando, ora! Qual  o problema? Fiz algo errado?
Lisa no estava entendendo. O que teria acontecido?
Por que ele estava to tenso?
Olhe  sua volta. Quem est por perto?
Ningum.
Isso mesmo. A praia est vazia, no ?
Sim. Deve ser mais tarde do que pensei. Que oras so? Deixei meu relgio no hotel quando me troquei para vir para c.
O horrio no importa. O que quero saber  o que pensa que est fazendo, vindo nadar sem ningum por perto.
Oh,  isso? A gua aqui  bastante calma  explicou Lisa, notando que a expresso dele continuava severa.
E se voc tivesse algum problema enquanto estivesse distante da praia?
No aconteceu nada. Alm do mais, sou uma tima nadadora.
Em uma situao de imprevisto, isso no quer dizer nada  protestou Angus.
Oua  disse ela, tentando ser razovel.  Sinto muito se o deixei preocupado, mas eu estava em perfeita segurana. Alm disso, meu bem-estar no lhe diz respeito. 
J sou bem crescidinha, e posso cuidar de mim mesma.
Ao acabar de falar, Lisa pegou a toalha e a estendeu em outra posio sentando-se sobre ela, de frente para o mar. Esperava que ele recolhesse a dele e partisse.
Notou ento que o sol estava se pondo, e que a noite chegaria em poucos minutos.
Para sua surpresa, Angus se sentou a seu lado, olhando-a de tal modo que a fez lembrar de que estava usando um biquni minsculo, que revelava boa parte de seu corpo 
curvilneo e sensual.
Sempre dera um jeito de esconder seus dotes fsicos. Sentia-se pouco  vontade em ficar exposta, e no queria que gostassem dela por ter um corpo escultural. Optava 
por comprar apenas roupas largas e evitava usar saias curtas. As pernas bem torneadas e a cintura fina j chamavam muita ateno quando era preciso usar bermuda.
Porm, estava se sentindo nua diante dele, usando apenas aquele nfimo traje de banho.
         Oh... Ento pode cuidar de si mesma, no ?
        Claro que posso. Mas agora est escurecendo. Acho que devemos voltar para o hotel.
Lisa comeou a se levantar, mas ele a impediu, se-gurando-a pelo pulso.
Ainda no.
O que pensa que est fazendo?  protestou ela.
Ainda no estou pronto para deix-la ir. Acabou de dizer que est bem crescidinha e que pode cuidar de si mesma, no ? Nesse caso, por que no prova?

CAPITULO IV

Provar?  perguntou Lisa. O cu comeava a escurecer, e a expresso no rosto de Angus estava se suavizando, embora continuasse incompreensvel. O brilho daquele 
olhar e o sorriso em seus lbios pareciam mistrios impossveis de se decifrar.
Isso mesmo.
No estou entendendo o que quer dizer com isso  falou ela, continuando com o brao preso entre aqueles dedos fortes.  No sei do que est falando. Por favor, 
no estou acostumada a isto.
A qu?
Embora o tom da voz de Angus parecesse surpreso, Lisa sabia que no era aquilo o que ele estava sentindo. Ele a estava segurando daquela forma por saber o efeito 
que causava nela. Uma atitude semelhante  de um felino brincando com sua presa.
Acho que devemos voltar para o hotel.
Por qu? Sou seu anfitrio. Ser que no consegue relaxar um momento e conversar comigo?
Deixando escapar um riso nervoso, Lisa pde sentir a prpria pulsao disparar. Tivera poucos namoros ao longo de sua vida, e jamais fora beijada a ponto de se sentir 
desconcertada. Nada a havia preparado para a enxurrada de emoes que a estava invadindo.
Com um esforo supremo, conseguiu reunir energia para coordenar os pensamentos e responder:
Claro que consigo, se  isso o que deseja. S que estou comeando a sentir um pouco de frio aqui fora, e isso est se tornando desconfortvel.
Frio?  indagou ele, com ar de descrena.  Acho que no posso aceitar essa desculpa. Mesmo com esse biquni bastante revelador, no acho possvel que esteja com 
frio em uma verdadeira fornalha tropical.
Oh...
Era a primeira vez que ele fazia alguma meno ao corpo dela. Lisa estava comeando a se arrepender de haver escolhido aquele biquni.
Voc e Caroline pareciam estar conversando de forma bastante particular hoje  tarde, no convs do iate.
Angus comeou a acariciar a parte interna do antebrao dela com o polegar. Aquele gesto a deixou confusa. Parecia uma carcia bastante ntima, mesmo sendo algo 
superficial.
Estvamos?
Sobre o que estavam conversando?
No consigo me lembrar  improvisou ela, desviando o olhar.
Claro que consegue. Conte-me.
Prefiro no faz-lo. Na verdade, prefiro que solte meu brao e que me deixe voltar para o hotel.
E eu prefiro no atender a nenhuma dessas exigncias. Parece que estamos em um impasse, no ? No gosto de impasses.
Depois de um longo silncio, Lisa comeou a falar.
        Ela est preocupada. Se quer mesmo saber, ela acha que voc precisa de proteo. 
  mesmo? Proteo contra o qu? Ou melhor, contra quem?
 Contra mim.
Angus soltou o brao dela e a olhou, pensativo.
Acho que eu e Caroline precisamos ter uma pequena conversa de primo para prima.
No! Por favor, no faa isso. No quero colocar ningum em situao difcil. Alm do mais, ela s est preocupada com seu bem-estar. Eu provavelmente faria o mesmo, 
se estivesse no lugar dela.
Duvido muito de que voc fosse capaz disso  declarou Angus, deixando claro que havia um segundo sentido naquela frase.  O problema de Caroline  no conseguir 
resistir aos homens. Ela passa de um relacionamento a outro em um piscar de olhos, e julga que todas as mulheres tambm so assim. S deixei que ela viesse nesta 
viagem por estar se recuperando de um noivado que no deu certo. O terceiro, em um espao de menos de dois anos.
Por favor, no diga nada a ela.
Acabou de dizer que, na posio dela, teria a mesma atitude. Admita que no  nada parecida com ela.
No, no sou  murmurou Lisa, comeando a se sentir incoerente.  Ela  lindssima...
No estou falando de aparncia, mas acho voc muito mais bonita  disse ele, impaciente.  Quero saber se tambm costuma mudar de namorado como quem troca de roupa.
Claro que no.
J teve um amante alguma vez?
Isso no  da sua conta  respondeu ela, corando ao se lembrar de que ainda era virgem.
Quem Angus pensava que era para fazer aquele tipo de pergunta?
        Responda.
Lisa hesitou alguns segundos, e percebeu que o silncio havia servido de resposta.
J pude ter, mas no achei que valesse a pena  ela se justificou, sentindo-se embaraada.  Mas  claro que tive namorados!
 natural  falou Angus, usando um tom de voz calmo e sedutor.
Levantando-se de repente, Lisa comeou a caminhar depressa em direo ao hotel.
H muito mais por trs de uma pessoa madura do que apenas experincia sexual!
Claro que sim.
E pare de concordar comigo  falou, virando-se de repente e se surpreendendo por descobri-lo a apenas um passo atrs dela.  Pensa que no sei que est apenas querendo 
me acalmar? No sou tola.
No, no  mesmo  disse Angus.
A est voc outra vez.
Prefere que eu a contrarie?
At que seria uma mudana agradvel! Isso faria com que deixasse de me sentir como alvo de sua caridade.
Balanando a cabea negativamente, Angus a segurou pelos ombros, falando de maneira pausada e clara.
Pare de dizer o quanto sinto pena de voc. Como isso seria possvel, seja est to repleta de autopiedade?
Isso no  verdade.
Sabe muito bem que no consegue deixar o passado para trs. Suas lembranas a perseguem como se fossem ces de caa. Aceitou vir nessa viagem graas a um momento 
de impulsividade, mas agora no consegue lidar com as prprias inibies.
Por que estamos falando nisso? O que isso tem a ver com tudo mais? No o quero me analisando o tempo todo.
Por temer que eu esteja mais certo do que voc gostaria?
Apenas porque no lhe diz respeito, como eu j disse antes.
E volto a responder que isso me interessa, sim. Alm do mais, de onde tirou a idia de que no  bonita?  perguntou Angus, com ar sedutor, levando a mo  nuca 
de Lisa.  Que no se importe com dinheiro eu entendo, mas no enxergar a prpria beleza...
Ela no soube o que responder. Era difcil pensar com clareza, sentindo aquela mo forte massage-la com tanta destreza. Podia senti-lo respirar mais intensamente, 
como se estivesse to ansioso quando ela prpria.
Era fascinante estar quase em contato com aquele peito msculo, totalmente nu, emanando calor enquanto se expandia e se contraa a cada flego.
Os dedos fortes se enlaaram entre seus cabelos, e ela se viu sem defesa. O instinto passou a domin-la, e seus braos se cruzaram automaticamente em torno do pescoo 
dele. Como podia ser trada por seu prprio corpo, de uma forma to explcita?
O rosto de Angus foi se aproximando lentamente, e a ansiedade que a envolveu revelou que estava esperando por aquele momento havia muito tempo.
O beijo comeou com um leve toque de lbios, mas foi se transformando em algo apaixonado, tornando-se quase furioso. Mas isso no foi suficiente para satisfaz-los. 
Ambos queriam mais.
Sem compreender direito como havia acontecido, de repente, Lisa estava sem a parte de cima do biquni. Haviam se separado naturalmente ou Angus conseguira tir-lo 
durante o beijo? Parecia estranho, mas naquele momento o detalhe no fez diferena.
Ele comeou a explorar-lhe os mamilos rosados, com muita experincia e sensualidade. Pouco depois, aqueles dedos fortes cederam lugar a lbios ainda mais ousados, 
que a levaram a gemer alto, de tanta excitao.
Lisa vivia sensaes que jamais experimentara antes. No conseguia pensar, tudo era inebriante.
Em meio s carcias, deitaram-se na areia. A toalha estava estendida sob seus corpos, mas Lisa no fazia idia de quando Angus a colocara ali. Estava to envolvida 
que seria capaz de ignorar at a Terceira Guerra, mesmo que ela comeasse ali mesmo, na praia.
Contudo, ao sentir a mo dele deslizar sob a pea inferior do biquni, Lisa recuou de repente, afastando-se.
Aquilo no daria certo. Achava melhor sonhar com o que no conhecia do que experimentar algo que jamais poderia ter outra vez.
Qual o problema?  perguntou Angus, parecendo desorientado.
No posso fazer isso!  murmurou Lisa, percebendo que ele no a deixaria levantar-se de imediato.
No pode parar agora  insistiu ele.
Est me machucando.
Ora...  ralhou Angus, soltando-a.
Ao sentir que estava livre, moveu-se lentamente, para no dar a impresso de que pretendia fugir dele.
Sinto muito  sussurrou ela.
Esquea.
Eu no queria que... Bem, no pretendia que nada disso acontecesse.
J disse para esquecer  falou ele, levantando-se e comeando a caminhar na direo do hotel.
Foi preciso acelerar o passo para acompanh-lo ao longo do caminho.
Sentia-se uma tola por haver chegado a tal situao. Primeiro aceitara aquele convite de maneira impensada. Depois, no conseguira desconfiar do poder que aquela 
atrao que sentia por ele poderia ter sobre seu comportamento. No sabia o que a levara to longe, mas tinha certeza de que no deveria ter chegado l.
Sei que est bravo  sussurrou Lisa, seguindo-o de perto, j prximos do hotel.  Acontece que no sou do tipo de pessoa que...
No precisa fazer um longo discurso, Lisa  interrompeu Angus, sem se virar para encar-la.
No pretendo discursar. S quero me explicar.
Para que possa se sentir melhor sobre o que quase fizemos?
No  isso  negou ela, sabendo que era aquilo mesmo.
Ento fale, se  que isso a far sentir-se mais tranqila. Sou todo ouvidos.
Parando de andar, virou-se e a encarou, em silncio.
Algo aconteceu. No sei bem o que foi.
Isso se chama atrao sexual  explicou Angus.
Pode ser.
No  "pode ser". Diga! Atrao sexual.
Est bem! Atrao sexual. Foi isso o que senti. Est melhor agora? Pois bem, deixei-me levar pelo momento e fiz algo que jamais faria em condies normais.
Oh, que terrvel  ironizou ele.  O fim do mundo, no?
No  nada disso. Apenas um erro. Tudo o que quero dizer  que cometi um erro, e preciso me desculpar por t-lo envolvido.
Desculpa aceita  disse Angus, virando-se e voltando a caminhar.
No acontecer de novo  falou Lisa, quando j estavam na rea do jardim do hotel.
Tenho certeza disso.
O fato  que voc no  o meu tipo...
Angus parou, j em frente  entrada do hotel, vi-rou-se e a encarou, com ar curioso.
Qual  o seu tipo?
Ainda no sei...
"Com certeza ningum to inteligente, rico, charmoso e sensual quanto voc", pensou frustrada. Assim que tivesse a curiosidade satisfeita, ele iria procurar outra 
novidade, outra mulher. Esse era seu maior temor.
        Vamos l  insistiu Angus, com um sorriso amargurado.  Creio que possa dizer algo melhor do que isso.
Lisa permaneceu em silncio.
Deixe-me tentar ajud-la. Voc no vai para a cama com um homem s porque est atrada por ele. No. Isso seria simples demais. O que quer  um homem que garanta 
amor eterno. Talvez assim venha a fazer algo espontneo. Mas s depois de se sentir segura o suficiente.
Isso no  justo!
Exceto,  claro, pelo fato de no haver garantias assim na vida real  prosseguiu ele, ignorando o protesto.
Sei que no h esse tipo de garantia, e no  isso o que quero. Voc  que no pode aceitar o fato de que foi rejeitado por uma mulher. Aposto que isso jamais lhe 
aconteceu antes!
Angus permaneceu em silncio.
        Tenho certeza de que seu orgulho est ferido. Agora tenta se justificar dizendo que eu  que estou errada. A verdade pura e simples  a seguinte: sou mesmo 
inexperiente e o considero atraente, mas no o suficiente. Por isso no prossegui.
Ao v-lo franzir o cenho, ela percebeu que exagerara.
Ento  isso?
Sinto muito. No deveria ter dito essas coisas.
Por que no?  sempre bom colocar tudo em pratos limpos  afirmou Angus, sorrindo de maneira impessoal, com diplomacia calculada.  Isso sempre clareia as idias 
e nos mostra tudo com nitidez.
  concordou Lisa, sem saber como reagir.
Agora podemos prosseguir como se nada houvesse acontecido.
Isso mesmo.
O fato de tal idia haver partido dele foi um grande alvio. O problema seria fingir que jamais sentira aquele corpo em contato com o seu.
Eles se separaram e, instantes depois, ela estava tomando banho. No fundo, sabia que nem toda a gua do mundo conseguiria faz-la deixar de sentir o toque de Angus 
em sua pele.
Ao se deitar para descansar, no teve coragem de fechar os olhos. As imagens do que acabara de viver ficavam se repetindo em sua mente. Como iria encarar o jantar 
daquela noite, na companhia de todos? E os dias que se seguiriam?
Algum tempo depois, quando se juntou aos outros no restaurante do hotel, teve medo de encar-lo. Porm, ao faz-lo, descobriu, com uma ponta de decepo, que seria 
fcil disfarar o que sentia. "No aconteceu nada", dizia a expresso daqueles inesquecveis olhos azuis.
Que grande ator ele era.
Nos dias que se seguiram o pequeno grupo pde conhecer vrias ilhas, mergulhar e se bronzear  vontade. Passearam muito tambm. Quando faltavam apenas dois dias 
para o final da viagem, Lisa j estava comeando a sentir saudade daquela rotina.
A essa altura, estavam chegando a Granada, onde aportariam e passariam a ltima noite, antes de pegar um avio de volta para Londres, no dia seguinte.
Como chegaram cedo, decidiram tomar o desjejum a bordo, o que foi muito relaxante. Lisa se recostou na espreguiadeira e se deixou levar pela languidez causada pelo 
calor matutino Estava to bronzeada quanto Caroline, tendo obtido uma cor que a agradara muito, atribuindo-lhe um aspecto bastante extico.
Com os olhos apenas entreabertos, ficou ouvindo os assuntos se sucederem sem nenhuma lgica entre os outros membros do grupo, ao longo do desjejum. Nada que merecesse 
muita ateno.
De repente, quando estavam falando sobre o que fariam ao longo do dia, que seria o ltimo da viagem, Angus se dirigiu a ela.
        Desculpe-me, mas acho que estava distrada. O que disse?  perguntou Lisa, ao abrir os olhos e encontr-lo fitando-a.
Lilly e Gerry estavam falando sobre outro assunto, e nem mesmo notaram o que se passava logo ao lado.
Caroline vai passar o dia na praia com Gerry, Lilly e Sarah  disse ele, era tom casual.  Como  nosso ltimo dia de viagem, e voc no conhece esta regio, resolvi 
lev-la para passear pela ilha. Estou certo de que a vegetao local vai deix-la fascinada.
Obrigada, mas prefiro ficar por aqui mesmo, descansando e nadando.
Tenho certeza de que Lisa preferir ficar por sua prpria conta a acompanh-lo em uma excurso tola pela ilha, sob este sol arrasador e este calor infernal  falou 
Caroline, de modo autoritrio.
Estou certo de que ela pode tomar a deciso por conta prpria, priminha  disse Angus com firmeza, antes de voltar a encarar Lisa.  E ento? No creio que possa 
partir sem conhecer a riqueza da vida vegetal deste lugar. A menos,  claro, que haja alguma restrio pessoal quanto  minha companhia.
No,  bvio que no  respondeu ela, soltando uma pequena risada.
A voz dele continha um leve tom de desafio e, naquele momento, seu sorriso denunciava um certo ar de vitria.
        timo. Ento estamos combinados.
Angus recostou-se tranqilamente outra vez, enquanto Lilly questionou Lisa sobre o trabalho que fazia na rea de botnica. Caroline entrou na conversa com seu tom 
de voz autoritrio, levando todos a se calarem.
Minha me tambm se interessa por plantas. Trabalha muito em prol da exposio de jardinagem de Chelsea. Monta um estande todos os anos, o que  muito sem graa. 
Gosto de flores, mas no vejo razo de se trabalhar com elas, quando se pode pagar para algum faz-lo.
Voc nunca viu razo para nenhum tipo de trabalho, Caroline  ressaltou Angus, consultando o relgio.
Ora. Por que me incomodar com algo que no preciso fazer?
Angus nem mesmo se deu ao trabalho de responder. Os assuntos de Caroline sempre seguiam o mesmo curso. Ela falava em tom de declarao, todos ouviam quietos, e 
ningum considerava que valia a pena discutir. Ento ela se dava por satisfeita e voltava  sua tarefa predileta: bronzear-se. Era como se nada pudesse afet-la 
em seu infeliz mundo pessoal.
Quase nada. Angus era uma exceo. Seria algum tipo de atrao que Caroline sentia por ele, ou apenas protecionismo? De qualquer maneira, todas as mulheres que 
se aproximavam dele acabavam passando um longo tempo a observ-lo. Era irresistvel.
Assim que atracaram, comearam a planejar um encontro para o almoo, e Angus saiu para alugar um carro.
Isso ser muito interessante! Garanto que vai se divertir muito passeando com Angus pela ilha, e olhando toda essa maravilhosa vegetao tropical  disse Lilly, 
animada.  Que tima idia a dele, no acha?
Sim, claro  respondeu Lisa, tentando parecer entusiasmada.
Observou o casal ir  terra, acompanhado da pequena filha. Apenas Caroline ficou para trs, embora j estivesse em roupas de passeio.
No vai acompanh-los, como havia planejado?  perguntou Lisa, com polidez.
Quero ter uma palavrinha ou duas com voc.
Oua...
Embora soubesse que no tinha responsabilidade pelo arranjo armado por Angus, Lisa estava prestes a se desculpar pelo ocorrido, quando foi interrompida.
E voc que vai ouvir. Olhe para si mesma. Aposto que est pensando que acertou na loteria, sendo convidada para um passeio pela ilha, sozinha, com meu primo. Deve 
achar que agora tudo vai se ajeitar, certo?
No  nada disso.
Coloque-se no seu devido lugar! Ele est fora de seu alcance, garota  declarou a loira.
Creio que esteja entendendo tudo errado, Caroline.
No estou, no. E bvio que voc se sente atrada por ele. Estou apenas lhe fazendo um favor, avisando-a para se manter a distncia.
Por que se interessa tanto? Ele tambm est fora de seu alcance. No quero nada com Angus, e no sou nenhuma caadora de fortunas.  Lisa fez uma pausa e franziu 
o cenho.  Entendo que queira proteg-lo, mas ele a v apenas como uma criana. No...
Por que no se preocupa com sua prpria vida?  esbravejou Caroline, empalidecendo.
Lilly est acenando na nossa direo. E melhor que v logo, ou vai ser deixada para trs.
Era bvio que no havia lgica em argumentar. O melhor a fazer era se livrar do problema.
Voc no pertence  nossa classe  declarou Caroline, dirigindo-se para a sada do convs.
No, e nem quero pertencer  informou Lisa, perdendo a pacincia.
Pelo menos  uma sbia deciso  constatou Caroline, antes de deixar o iate.
Depois de mais de vinte minutos de espera, Lisa viu Angus retornando, balanando um molho de chaves na mo. Para algum que havia feito uma armadilha para lev-la 
naquela excurso, ele parecia bastante desanimado. Sua expresso estava sria.
        No precisa se preocupar em cumprir a promessa do passeio, caso tenha mudado de idia. Ficarei mais do que satisfeita em passar o dia na praia.
- Disso eu tenho certeza  falou ele.  Sei que prefere ficar confinada em uma solitria a ter minha companhia, mas  assim que vai ser.
Angus a conduziu at um carro azul bastante antigo, abriu a porta para ela e ento se instalou no banco do motorista.
Lembrou-se de comprar um mapa?  indagou ela, fazendo uma pausa antes de continuar  Sinceramente, no acho que este passeio seja uma boa idia.
E uma idia excelente. E, respondendo  sua pergunta, no comprei mapa algum. Quero apenas pegar a estrada que segue ilha adentro e ver onde ela nos levar.
Permanecendo em silncio, Lisa ponderou sobre o fato de estar no meio de um lugar desconhecido na companhia dele, ao longo de muitas horas, e correndo o risco de 
se perderem.
Seria uma mudana radical de situao. Desde o evento na praia, logo na primeira noite do cruzeiro, no haviam ficado sozinhos mais nenhuma vez.
 O gato comeu sua lngua, Lisa?  perguntou Angus, dirigindo com tranqilidade pela estrada principal da ilha.  Ou est abalada pela perspectiva da aventura que 
se apresenta logo adiante?
Ao ouvi-lo rir no final da frase, sua imaginao a deixou pouco confortvel, pois ela comeou a traar inmeras possibilidades de problemas que teria de enfrentar.
Mas uma pergunta permanecia em sua mente: a que tipo de aventura estaria ele se referindo?

CAPITULO V

Lisa estava olhando a paisagem pela janela aberta do veculo. No havia ar-condicionado, e o mormao os mantinha quentes e suados, mesmo com o vento forte causado 
pelo movimento do carro.
Angus estava muito srio e calado, o que a deixou confusa. Por que ele insistira naquele passeio, se no pretendia conversar? Principalmente sabendo que ela no 
queria ir?
Ele era um verdadeiro mistrio. Mesmo que quisesse, no saberia como quebrar o pesado silncio que se instalara entre eles.
Pelo menos, Angus parecia saber para onde estava indo, mesmo sem a ajuda de um mapa. O que significava qu j estivera ali no passado. Teria levado outra garota 
naquele mesmo passeio? Algum que j havia sido relegada ao esquecimento? Outro mistrio.
Observando-o de soslaio, de vez em quando, logo Lisa voltava a ateno para a rica vegetao que dominava a paisagem entre os vilarejos. Ficara claro que estavam 
se dirigindo para o centro da ilha.
Quanto mais rodavam, menor era a quantidade de casas e de pessoas, at que chegaram a uma regio despovoada. As plantas ali eram muito mais verdes e superavam qualquer 
foto de livro que ela j houvesse visto. Na estufa, jamais cultivara espcimes to belos.
        Meu pai adoraria ver tudo isso  murmurou Lisa, completamente hipnotizada pela beleza local, esquecendo-se de que ele estava de mau humor.  Na verdade 
isso deixaria papai alucinado. Seria difcil faz-lo se afastar dessas plantas. Estaria analisando e catalogando uma a uma, at descobrir algo novo, como sempre 
fazia. Ele costumava levar todo tipo de amostras para casa. Sabia que aprendi a desenhar o diagrama do corte transversal de uma folha antes mesmo de aprender a 
ler?  acrescentou, animada, sem se virar para olh-lo.  Sei que no  um talento muito til, mas foi o que aprendi naquela poca.
Soltando uma risada espontnea, virou-se e olhou para ele. Descobriu-o menos srio, mas ainda havia algo de estranho e incompreensvel em sua expresso. Diante daquilo, 
achou melhor voltar  tarefa menos intimidadora de observar as rvores pelo caminho.
Estavam bastante afastados da civilizao, e a estrada os estava conduzindo para uma rea de mata bastante fechada. Tudo parecia to colorido e fascinante que 
ela mal podia se conter.
        Na estufa  impossvel conseguir essa riqueza de cores. Nada se compara  vida selvagem. Mesmo as orqudeas mais bem tratadas se recusam a ficar to exuberantes 
quanto s das regies tropicais. E tudo to lindo por aqui... Estou cansando voc com meu falatrio?  indagou ela, olhando-o preocupada.
Angus sorriu com naturalidade, parecendo satisfeito.
Quer que eu pare o carro para que possa olhar tudo de perto?
Voc no se importaria?
No instante seguinte, Lisa estava se embrenhando na selva tropical, olhando tudo cuidadosamente, sem perder nenhum detalhe. Pouco depois, voltou na direo do carro, 
trazendo um punhado de flores exticas nas mos.
Ao v-la entrar no carro e se sentar, ele fez uma careta engraada, dizendo:
        Isso  para mim?
Ao v-lo voltar a sorrir, Lisa ficou aliviada.
Achei que combinava com a cor de sua camisa.
Hum... Devo colocar uma atrs da orelha?
Fico contente que seu humor tenha melhorado.
Quem estava de mau humor? No. No precisa responder.
Foi algo que fiz?  perguntou Lisa, franzindo o cenho.
Por que sempre se acha culpada de tudo?
Acho que  um hbito. Cresci me culpando por ser diferente de meus pais, e acho que nunca pude parar com isso.
Ela mesma riu ao acabar de falar e voltou a olhar para fora.
Estavam no ponto mais alto da ilha. Tudo mais parecia pequeno diante do Grand Etang, a cratera de um vulco extinto, que se transformara em um gigantesco lago 
azul.
Caminharam um pouco ao redor dele. Lisa mal podia conter a felicidade que sentia, comentando cada detalhe.
Est parecendo uma criana que acabou de ganhar um brinquedo novo  disse Angus.
E quem pode me censurar? Nunca vi um lugar assim antes! Pela primeira vez estou entendendo o comportamento de meu pai. Isso  incrvel! Pena que sempre tive tantos 
problemas com aquelas mudanas constantes.
Algumas pessoas aproveitariam esse tipo de vida para fazer novas amizades.
E verdade, mas no eu. Nunca fui muito extrovertida. Mas por que estamos falando srio, se hoje  o nosso ltimo dia de frias? Estamos no meio de uma maravilhosa 
ilha ensolarada. Vamos sorrir!
Estamos srios para podermos chegar ao fundo de seus mistrios  declarou Angus, com tranqilidade.
Estavam fazendo companhia um ao outro de forma muito agradvel, por horas. Naquele meio tempo, Lisa esquecera toda a tenso que sentia perto dele. Mas bastou que 
o assunto se inclinasse em sua direo para que tudo se complicasse outra vez.
Esperando que ele fosse insistir no assunto, voltou para o carro e ocupou seu assento. Para sua surpresa, no foi o que aconteceu. Fizeram todo o caminho de volta 
conversando sobre trivialidades. Assuntos com os quais ela poderia lidar com facilidade.
At que comearam a falar de seus finais de semana.
Lisa o fez rir, contando que preferia um bom livro e uma xcara de chocolate quente a um "embalo de sbado  noite".
        E nada de namorado  constatou Angus, falando com naturalidade.
Ela o ignorou, o que o levou a dar outra risada. Pouco depois estavam chegando  marina.
Aqui est. Inteirinha e a salvo  declarou ele.  No foi to horrvel quanto pensou que seria, certo?
Obrigada. Foi um dia maravilhoso  confessou Lisa, sorrindo.
Mais tarde, durante o jantar, Lisa achou difcil parar de pensar no que estava acontecendo em sua vida. Embora houvesse conseguido participar das conversas, no 
estava inteiramente ali. Sua mente parecia vagar entre o passado e o futuro, tentando conectar novamente s duas metades de sua vida: antes e depois de Angus.
Sabia que partiriam no dia seguinte, e que era provvel que jamais se vissem outra vez. Deveria estar pronta para voltar  realidade de sua vida. Precisava se convencer 
de que tudo seria como antes.
Mas dentro de si havia algo desmoronando. Era difcil saber por que, mas algo estava afetando sua capacidade de pensar. Como poderia passar os anos seguintes 
sem jamais v-lo outra vez?
O final do jantar trouxe uma sensao de alvio. Poderia ficar sozinha e parar de representar. Teria uma oportunidade de pensar em tudo o que acontecera e ento 
tentaria restabelecer sua ordem interior.
Sem perder tempo, fechou-se no quarto e se deitou. Passava da meia-noite quando desistiu de tentar dormir. Colocou um short e uma camiseta e foi caminhar na praia, 
olhando o mar e as estrelas.
Pouco depois achou que estava tendo alucinaes, pois ouviu a voz de Angus junto a seu ouvido.
        Tambm no conseguiu dormir?
Era real. Ele estava prximo, mas no muito. Lisa no teve coragem de encar-lo diretamente, ento ficou olhando o mar.
Acho que estou nervosa por causa do vo de amanh. Aconteceu o mesmo antes de eu sair de Londres.
 s isso?  murmurou ele, segurando-a pelo brao e conduzindo-a para longe da linha da gua.  Sente-se, precisamos conversar.
Ambos sentaram-se na areia.
Sobre o qu?  perguntou Lisa, evitando encar-lo.
Olhe para mim. Eu estava mal-humorado hoje cedo porque no queria lev-la para sair, mas tinha de faz-lo.
Sinto muito, mas no estou entendendo aonde quer chegar. Acho que est muito tarde, e que devemos nos recolher.
E disso mesmo que estou falando.
De qu?
Nunca lhe disseram que quanto mais rpido se foge, mais depressa se fica sem sada? H momentos em que se comporta como um antlope flagrado pela lanterna de um 
caador.
Desculpe-me.
Quer parar de se desculpar? Tente entender o que estou querendo dizer: eu quero voc.
Lisa ficou em silncio por um longo tempo, encarando-o. Era difcil aceitar o que acabara de ouvir. Por fim, conseguiu falar, mas estava muito tensa.
No.
Pare de fugir de mim  disse Angus, segurando-a pelo pulso.
J passamos por isso. Concordamos em...
Nada. No concordamos em nada. Acha que gosto de ser controlado por algo to impulsivo quanto este desejo?
No sei o que dizer.
No diga nada. Apenas acabe o que j foi comeado.
Levando a mo aos cabelos dela, acariciou-a e a trouxe cuidadosamente para junto de si, sem encontrar resistncia. Contudo, ao ser beijada, Lisa comeou a tentar 
se afastar.
        Pare de combater o desejo que a est consumindo - murmurou Angus, com os lbios ainda pressionados
contra os dela.  Diga que no me deseja, e pararemos tudo neste momento.
Naquele instante, ciente de que no seria capaz de rejeit-lo outra vez, ela abriu mo de todo o medo que sentia. Decidiu que no iria perder aquela experincia.
Tomando a iniciativa, abraou-o com fora, deitando-se de costas e puxando-o sobre si. Quando voltou a ser beijada, retribuiu com a mesma paixo e desejo, extravasando 
o que vinha contendo h meses.
Protegidos pelo manto da noite, despiram-se lentamente. Lisa jamais imaginara que fosse possvel sentir tanto prazer em ser acariciada por algum. Sempre achara 
que as mos dos homens eram insensveis demais, mas estava surpresa com a habilidade de Angus em faz-la delirar daquele modo.
Aos poucos, a dana frentica do amor foi envolvendo a ambos. Mesmo sem ter experincia, seu corpo parecia corresponder ao dele da maneira certa. Ao ouvi-lo gemer 
e murmurar palavras entrecortadas enquanto se amavam, tinha a impresso de estar em transe.
Angus percebera logo no incio que ela era virgem, e fora duplamente gentil e cauteloso. Parecia incrvel que pudesse sentir tanto prazer ao fazer amor pela primeira 
vez. Sempre ouvira falar que isso era quase impossvel, mas ambos estavam conseguindo contrariar tal regra.
Depois de passarem pelo xtase, mantiveram seus corpos unidos por um longo tempo.
Esse no  exatamente o lugar ideal para fazermos amor  murmurou Angus, olhando na direo do caminho que levava ao hotel.
Acho que  o lugar perfeito. Temos a maior cama de areia que poderamos desejar, e o cu estrelado  o nosso cobertor. O que mais poderamos querer?
Foi ao v-lo sorrir que Lisa descobriu que algo mais havia acontecido. Estava amando.  No sabia dizer quando nem como isso acontecera, mas acabara de perceber 
por que estava vivendo aquela crise.
        Tem razo. Aqui est timo.
Passando as mos pelos cabelos dele, ela perguntou:  .
O que faremos agora?
Podemos ir para seu quarto ou para o meu. Se bem que este lugar est mesmo timo  respondeu Angus, acariciando-a e provocando-a.
No  isso  falou Lisa, com a voz comeando a ficar trmula.  Quero saber o que acontecer daqui para a frenie. O que ser de ns?
O que espera que acontea?  indagou ele.
No sei.
Mas ela sabia. Queria passar o resto de sua vida ao lado dele, ao mesmo tempo em que tinha certeza de que aquele era um desejo que ela jamais poderia revelar.
Sinto-me muito atrado por voc  confessou Angus, parecendo um pouco surpreso.
E no sabe dizer o motivo, no ?
Voc  completamente diferente de todas as mulheres com quem j sa at hoje."
        Que tipo de mulheres j levou para a cama? 
Lisa desejou poder se sentar e se vestir naquele mesmo instante. Era como se uma bolha mgica que os envolvera at ento houvesse desaparecido, deixando escapar 
todo o romantismo.
Se eu lhe contasse, teria uma impresso errada de mim.
Conte-me.
Mulheres glamourosas, mas sem contedo.
Como Caroline?
        Mais velhas, mas do mesmo estilo.
Escondendo a mgoa, Lisa se sentou e comeou a se vestir, lentamente. No queria dar a impresso de estar fugindo.
Entendo  foi tudo o que conseguiu dizer.
Quero continuar a v-la quando voltarmos para a Inglaterra.
Por quanto tempo?
Quem sabe? Poderemos enjoar um do outro aps uma semana.
Angus a estava provocando, mas escolhera um pssimo momento para faz-lo. Deixara claro que estava falando o que pensava por meio daquelas brincadeiras. S se 
interessava por sexo, e nem sequer pensaria em algum tipo de compromisso. Muito menos falaria sobre amor.
Londres fica muito longe de Reading  alegou Lisa.
Tenho um carro bastante rpido.
Ao v-la acabando de se vestir, Angus franziu o cenho, dizendo:
O que foi agora? Pretende me contar por que est assim ou vamos ter de comear com os jogos de adivinhao outra vez?
No  nada importante.
Voc est distante outra vez. Em um minuto est compartilhando o mundo comigo, e no seguinte volta a se fechar. Vai me explicar o que aconteceu ou vou ter de dar 
um outro jeito de descobrir?
Ela se levantou e comeou a caminhar na direo do hotel. No confiava nem em si mesma naquele momento. Estava abalada demais.
Responda  insistiu ele, segurando-a.
No posso suportar um relacionamento em que eu fique  merc da disponibilidade de outra pessoa. Passei por essa situao durante anos, acompanhando a vontade de 
meus pais.
Nossa situao no  essa.
Pode no ser igual, mas  bastante similar.
Isso  ridculo.
Talvez para voc  explicou Lisa, evitando encar-lo.  Mas no para mim.  assim que estou me sentindo, e  tudo o que tenho a dizer.
E o que aconteceu entre ns? No tem nada a dizer a respeito?
Eu gostei muito...  murmurou ela.
Esse era o problema. Gostara at demais. Como poderia ficar com ele algum tempo e depois sobreviver  inevitvel separao? Cedo ou tarde, Angus se cansaria, mas 
ela continuaria a am-lo. No suportaria ser substituda sem mais nem menos. Seria melhor acabar tudo ali mesmo.
        Mas isso no  suficiente, certo?  perguntou ele, observando-a dar de ombros.  Ento  isso. Nada de prazer, sem suas preciosas garantias. Se  assim, 
vamos encerrar o assunto por aqui.
Angus a soltou, e ela se afastou sem olhar para trs. Foi direto para o quarto e comeou a agir como uma autmata. Tomou banho e vestiu sua camisola, indo para a 
cama. Estava de olhos fechados, ainda sem conseguir dormir, quando sentiu um toque no ombro.
Ao se virar e ver um vulto sobre si, abriu a boca para gritar, sendo impedida por uma mo enorme que a calou, cobrindo-lhe os lbios e parte do rosto.
        Calma, sou eu. Angus  falou ele, mantendo a mo sobre a boca de Lisa.  Estive pensando. No me importo de ser pressionado. Acho que sua atitude  imatura, 
mas compreendo que no esteja pronta para mudar. Proponho que venha morar comigo.
S ento ele retirou a mo do rosto dela, mas o choque a manteve em silncio por alguns segundos.
        No vou morar com voc. No pretendo ser sua amante.
Por que no? O que quer mais? Casamento?  isso? Pois saiba que no nasci para me casar. J vi o lado negro do matrimnio. Meus pais se digladiaram por anos, mantendo 
uma ridcula fachada de convvio mtuo. E pior, por mera comodidade.
Voc mesmo disse que no h certezas na vida. Como pode saber que seu casamento seria to desastroso quanto o de seus pais? Minha experincia  diferente. Mame 
e papai foram muito felizes no matrimnio.
A questo no est aberta para discusso, Lisa.
E quanto a filhos?  desafiou ela.
So timos para os outros. Sorte de quem os tem. Mas que coisa! Estou lhe oferecendo o compromisso mais srio que jamais ofereci a uma mulher. Aceite!
Saia daqui. No quero saber de sua oferta.
Pois que assim seja  esbravejou ele, depois de fit-la por alguns instantes.
Ao v-lo sair e bater a porta, ela se levantou e foi correndo tranc-la. Fora imprudente ao se deitar sem verificar a fechadura.
Ficou as duas horas seguintes com os olhos abertos, repassando cada momento que haviam passado juntos. Seria doloroso lembrar-se do prazer que sentira naquele ato 
de amor, mas no poderia se submeter a ser uma amante descartvel. Jamais pensara que fosse se apaixonar por um homem to inalcanvel.
Se aceitasse morar com ele, iria sofrer muito mais. Seria o pice da humilhao e da decepo. Iria comear cada dia se perguntando se seria dispensada ou no, 
nas vinte e quatro horas seguintes. No, isso no.
Jamais gostara de viver no fio da navalha.
Seria melhor juntar os pedaos de seu corao, enquanto tinha chance, do que perder-se completamente depois de algumas semanas, ou at meses, ao lado dele. Se permitisse 
que aquele amor fosse adiante, a no haveria retorno.
Tendo convencido a si mesma de que fizera a melhor opo, virou-se de lado e fechou os olhos, deixando-se embalar pelo sono.

CAPITULO VI

Estava frio e chovendo quando o avio pousou no          
aeroporto de Heathrow.
Lisa olhava pela janela do txi, observando as gotas de gua escorrerem pelo vidro. No queria se lembrar da viagem que ficara para trs, mas sua mente parecia haver 
entrado em um ciclo de repeties.
Angus no lhe dirigira a palavra por toda a viagem. De fato, mal olhara em sua direo. Sentara-se ao lado de Gerry e passara a viagem toda conversando sobre negcios 
e esportes. Para sua maior tristeza, ficara logo na fileira de trs, sendo obrigada a ouvir aquela voz suave e sedutora durante todo o tempo.
A caminho de Reading, o motorista do txi tentou comear um dilogo, contando sobre os dias de chuva incessante que vinham se sucedendo. Mas no encontrou nela 
uma boa companhia. Lisa no queria conversar.
Ao chegar em casa, considerou que aquela paisagem tropical parecia haver ficado no apenas para trs, mas perdida no passado.
Paul a recebeu em festa, ao v-la voltar ao trabalho. Elogiou seu bronzeado e fez alguns comentrios sobre viagens.
 Em uma semana ter a impresso de que fez essa  viagem h anos  disse ele.  Ellie sempre me fala que o nico jeito de fazer a sensao durar  agendar uma nova 
aventura para o mesmo dia em que a primeira terminar.
Todos haviam sentido sua falta, tanto no trabalho como nos encontros de amigos. Tambm havia bastante servio acumulado sobre sua mesa. Deveria estar contente por 
retomar sua rotina, mas algo mudara dentro dela. Vivia uma sensao constante de estar fora da realidade.
Algumas semanas de cotidiano haviam colocado a imagem daquelas frias em uma regio distante de sua mente, mas Angus parecia insistir em permanecer em primeiro plano.
No era justo. Estava se esforando para esquec-lo, mas as lembranas brotavam como que por vontade prpria. O esforo de fingir que estava tudo bem a estava consumindo 
e estressando, tanto que no percebera de imediato algo estranho que lhe ocorrera.
Passadas seis semanas aps sua chegada, notou que seu ciclo no havia acontecido. Estava com quase um ms de atraso. Suando frio e se sentindo apavorada, foi at 
a farmcia e comprou um kit de teste. Em jejum, na manh seguinte, quase morreu de susto ao confirmar o que mais temia. Sua vida jamais seria a mesma, pois estava 
grvida.
Olhando para aquela impessoal lista azul no testador de plstico, verificou mais uma vez todo o processo. No havia cometido nenhum erro. No podia aceitar que tivesse 
acontecido algo assim. No era justo. Fora sua primeira e nica vez!
Jamais pensara que fosse acontecer com ela. Nem mesmo se lembrara de tal possibilidade, quando estava deitada na areia daquela praia. Estava fazendo amor com o homem 
que descobrira estar amando, e sabia que jamais o veria outra vez.
Com lgrimas nos olhos, lembrou-se das lies que ouvira de sua me na adolescncia. Tudo lhe fora explicado como em uma aula de biologia, nas as palavras finais 
daquela conversa pesavam-lhe na conscincia:
        Voc pode at pensar que isso jamais acontecer com voc, querida, mas seu momento chegar. E  melhor estar preparada, se no quiser que haja alguma conseqncia 
acidental.
Sua me deveria ter sido profeta, e no dona de casa. O tal acidente acontecera, embora mais parecesse uma catstrofe.
Ao chegar no escritrio, horas mais tarde, foi direto falar com Paul.
        Preciso contar-lhe algo um tanto surpreendente  disse, apoiando-se no encosto da cadeira de visitas, em frente  mesa de seu chefe.  Estou grvida.
Houve um silncio pesado e duradouro no ambiente. Ela no teve coragem de encar-lo, permanecendo de olhos abaixados at ouvi-lo falar:
        Voc no me parece muito feliz com isso.
A natureza bondosa de Paul sempre a surpreendia. Ele conseguira camuflar o choque e a surpresa com seu costumeiro bom humor.
E admiro sua capacidade de ser discreta. Jamais imaginei que houvesse um homem em sua vida  continuou Paul, ao v-la em silncio.
E no h  disse Lisa.  Apenas aconteceu, e agora no sei o que fazer.
Nada radical, espero. Sabe, no  o fim do mundo. Seu emprego aqui est seguro. H alguma chance de que o pai...?
No  interrompeu ela.  Ele no sabe e no quer ter filhos. Isso  problema meu. Mas fico-lhe muito grata por assegurar meu emprego. Isso  o mais importante para 
mim no momento.
No h ningum com quem contar num momento como esse? Sua famlia?
Ningum.
Parecia exagero, mas era a pura verdade.
        Ellie ficar feliz em ajud-la, como sabe  disse Paul, sorrindo com simpatia.
Ellie, a esposa dele, era uma pessoa doce e carinhosa. Criava os trs filhos em meio a um ambiente seguro e amoroso. Ela tambm ficaria chocada com a notcia, mas 
com certeza iria disfarar.
Com o tempo, todos que a rodeavam descobririam e seria uma surpresa geral. Mas seus amigos eram pessoas incrveis, e iriam compreender sem question-la. Conquistara 
o respeito deles e se orgulhava disso.
De fato, conforme foram sabendo, todos pareceram alegres com a notcia. Mas ela no conseguia compartilhar aquela excitao. Na verdade, com o passar das semanas 
seguintes, comeou a notar o crescimento de seu ventre. Certo dia, ao olhar para baixo, percebeu que estava sentindo algo diferente. Era a vida se desenvolvendo 
dentro de seu corpo.
No havia pensado nisso at ento, e estava surpresa com a sensao. Descobriu-se acariciando o prprio ventre, comeando a aprender a amar aquela criana ali 
mesmo, durante a gestao. Jamais imaginara que fosse possvel sentir-se daquela maneira.
Mas faltava algum com quem compartilhar seus momentos. As mes que tinham parceiros deviam ser muito mais completas. De repente, descobriu-se mais forte e ao mesmo 
tempo mais vulnervel. Era uma ambigidade que apenas as gestantes poderiam compreender.
Com o vero chegando ao final, comeara a poca das exposies de flores. Paul tinha dois convites para um evento que aconteceria em Chelsea, mas ele no poderia 
ir.
Tenho de viajar para a Alemanha hoje  noite, para acertar o contrato com aquela nova empresa de pesquisas botnicas. Os convites para a exposio de Chelsea esto 
aqui. No poderei ir, mas seria bom fazermos novos contatos este ano. Por que no vai em meu lugar? Pode levar algum, se quiser  sugeriu ele.
Pensei que me quisesse aqui durante sua viagem  respondeu Lisa.
No se preocupe. A estufa pode ficar sem nenhum de ns por um dia. V e aproveite para ver pessoas novas. S no deixe de pesquisar as mudas de que precisamos, e 
trate de fazer contato com provveis novos fornecedores e clientes.
Trs dias depois estava em Chelsea, com instrues para conseguir alguns bons negcios e para tentar se divertir. Logo na entrada do local, concluiu que havia sido 
um erro ir at l. A passagem estava congestionada, cheia de gente. No seria agradvel passar por ali, principalmente com a barriga j volumosa, aos quase cinco 
meses de gravidez.
Mas esperando com pacincia, conseguiu entrar. Descobriu que o interior do local no estava to lotado e comeou a agradvel tarefa de pesquisa. Sempre gostara 
de fazer compras, e a sensao de estar em uma espcie de supermercado de plantas era deliciosa.
Pensando naquilo, percebeu que no comprara nada para o beb. Limitara-se a receber e a guardar os presentes que ganhara dos amigos. Mas achava que poderia deixar 
para cuidar disso quando chegasse o perodo em que se afastaria do trabalho.
Pensava que haveria tempo de sobra para tanto. Alm. do mais, seria deprimente andar pelos corredores de um shopping, fazendo compras para o beb, sem ter um parceiro 
para compartilhar gastos e opinies.
De repente, Lisa ouviu uma voz conhecida cham-la.
Ao se virar, confirmou a identidade da pessoa que infelizmente acabara de encontrar. Caroline.
Como vai voc, minha cara?
Bem, obrigada  respondeu Lisa, prestes a continuar andando.
Mas a loira fatal no a deixaria escapar com tanta facilidade.
Mas que surpresa! Seu nome  Lisa Forbes, no?
Freeman.
Sim, claro. Lisa Freeman.
Caroline estava to bronzeada quanto na poca da viagem, e suas roupas no pareciam nada adequadas para algum que estava atrs de um balco, em uma exposio de 
plantas.
Como tem passado, Caroline?
Estou tima, exceto por ter de ajudar minha me nesse lugar horroroso.  Ela olhou para a barriga de Lisa.  Vejo que preciso parabeniz-la
Obrigada.
Quantos meses?
Quase cinco.
Entendo... disse Caroline, estreitando o olhar, com ar ameaador.  E onde est seu marido? Ele veio com voc?
Lisa no sabia o que responder, ento desconversou, perguntando:
No est mesmo gostando do evento? Por qu?
Como sempre, no acontece nada de diferente. Todos os anos  a mesma coisa. Mame se envolve nesses eventos e sempre me traz junto, para ajud-la.
Nesse caso, boa sorte. Mas agora preciso ir andando, e...
Sabe  disse Caroline, detendo-a antes que partisse.  Tentei a sorte com Angus, mas fui cruelmente dispensada. Creio que voc estava certa quando disse que ele 
me considerava uma criana. Ainda pensa assim mesmo diante de meus rduos esforos por convenc-lo do contrrio.
Oh.
Caroline sorriu com frieza, como se algo terrvel estivesse passando por sua mente maquiavlica. Era bvio que j havia feito as contas e estava desconfiada de 
quem era o responsvel pela gravidez de Lisa.
        Mas, de certa forma, fiquei contente por haver sido assim. Ele disse que no estava interessado em nenhum tipo de relao duradoura. Foi bastante en ftico 
quanto a isso. Se bem que  compreensvel: isso acabaria com o estilo de vida dele, no acha?
Lisa deu de ombros e permaneceu em silncio.
        Angus vive em um ritmo muito acelerado  continuou Caroline.  J pensou nas conseqncias, caso algum acidente acontecesse em seu percurso? C entre ns: 
se voc est com quase cinco meses de gravidez, a criana pode ser dele, no? Quero dizer, se  que aconteceu algo mais naquelas ilhas. No estou afirmando que 
ocorreu, mas as datas batem, estou certa?
Empalidecendo, Lisa arregalou os olhos e ficou emudecida. Diante de tal reao, Caroline fez uma expresso maldosa e continuou falando:
        Sabe, se a imprensa descobrisse algo assim, a empresa dele teria srios problemas. Um filho ilegtimo e no assumido seria o fim da carreira dele como publicitrio. 
Contudo, depois de ser rejeitada daquela forma, eu adoraria v-lo sofrer um pouco.
Tenho certeza de que no quis insinuar tal coisa, Caroline  respondeu Lisa, chocada.  No acredito que voc seja do tipo de pessoa vingativa.
De jeito nenhum, minha cara! Mas h algo delicioso em uma pequena vingana, no h? Mas voc ainda no respondeu se  ou no casada.
Algum que estava querendo passar por ali comeou a empurrar Lisa para o lado. Aquela foi a chance ideal para se desvencilhar daquela situao complicada.
Preciso seguir meu roteiro. Estou sendo pressionada para continuar andando. H mais pessoas querendo ver as plantas de sua me. Paraberize-a por mim, sim?
Pode deixar. Na verdade, pela primeira vez em anos vou agradec-la por ter me forado a vir. Caso contrrio, como teramos nos encontrado? No pode imaginar como 
fiquei feliz com isso.
Acenando um adeus, Lisa se afastou depressa dali.
No havia a menor condio de aproveitar o restante do evento. Fazendo rapidamente os contatos que prometera a Paul, voltou para casa assim que saiu de l.
Passou os dias que se seguiram aos sobressaltos, sem saber se Caroline iria cumprir a ameaa de ir a pblico com a notcia de sua gravidez. Pior ainda: ela contaria 
a Angus! Deus, como poderia voltar a encar-lo?
Cada vez que o telefone tocava, era um momento de terror. Esperava que ele fosse ligar a qualquer momento. Lisa estava se sentindo  beira de um precipcio.
Ao final de duas semanas, estava comeando a nutrir esperanas de que aquelas ameaas houvessem sido feitas em vo. Na terceira semana depois do evento, conclura 
que Caroline no pretendia realmente perturbar a vida dos outros. Era uma noite de sexta-feira, no comeo do outono. Quando a campainha tocou, ela no hesitou em 
atender. Judy estava habituada a passar por ali para jantarem juntas, sempre naquele horrio. Mas, para sua surpresa, era Angus que estava  sua porta.
Surpresa, Lisa?
O que est fazendo aqui?
O que voc acha?  indagou ele, sem a menor inteno de sorrir ou de mostrar charme.  No vai me convidar para entrar?
Sem esperar por uma resposta, Angus entrou e a deixou para trs, restando-lhe apenas a opo de fechar a porta e se virar para encar-lo.
De p, no meio da sala, ele parecia gigantesco. Jamais imaginara que um dia voltasse a encontr-lo.
E ento? No tem um discurso pronto, Lisa?
Discurso? Do que est falando?
Pensou que eu no iria aparecer? Estava pensando que seu plano iria falhar?
Que plano? No sei o que est querendo dizer.
Pare de tentar me fazer de bobo! Passei as ltimas semanas nos Estados Unidos, e acabei de voltar para Londres. Caroline foi me visitar horas depois que cheguei.
Ento estava explicado. A loira fatal arquitetara sua vingana e estava usando Lisa em sua rede de intrigas. O problema seria descobrir o que ela havia inventado, 
e depois fazer a verdade vir  tona.
Entendo.
Estou certo de que sim  disse Angus, com cinismo.  Ento pare de se fingir de inocente e diga logo quanto dinheiro voc quer.
Dinheiro?
Sim, dinheiro. Pensou que eu iria abordar o assunto com mais tato?
No sei do que est falando, e no aceitarei ser ofendida dentro de minha prpria casa.
Quando foi que elaborou seu pequeno e srdido plano, Lisa?  perguntou ele, em tom ameaador.
Por favor...
Por favor o qu?  interrompeu Angus.
O que foi que Caroline lhe disse?  exigiu Lisa.
Simplesmente o que eu precisava saber. Contou que voc a abordou na exposio de flores, exibindo sua barriga e dizendo que me faria pagar por t-la seduzido.
Isso no  verdade.
Ento me conte! Quando decidiu dar sua cartada? Aquela noite na praia foi planejada tambm, ou apenas jogou com a sorte? Deve ter concludo que nada tinha a perder, 
certo? Se no funcionasse, e no engravidasse, voltaria para sua vida normal. Mas caso a sorte a ajudasse, tudo o que teria a fazer seria acompanhar os eventos 
de botnica para esbarrar eventualmente com Caroline.
No!  esbravejou Lisa.
Muito inteligente de sua parte, memorizar que a me dela cultivava flores. Tudo o que teve de fazer foi telefonar para os organizadores de eventos e perguntar onde 
seria o estande dela.
No aconteceu nada disso! Pare de ser insensato!
Insensato?
        Nem sequer imaginei que Caroline estaria l! Jamais telefonei para evento algum. No acredito que teve a coragem de vir at minha casa para fazer estas 
acusaes contra mim!
Angus passou a mo pelos cabelos, impaciente. Estava comeando a expressar um certo ar de dvida.
        Mas essa criana  nossa, certo?
Certo  confirmou Lisa.
No aceitarei ser chantageado, em hiptese alguma. Mas estava dizendo que no arquitetou aquele encontro com Caroline. Continue.
Eu no queria falar com ela. Na verdade, quando tentei me esquivar, Caroline me deteve e me confrontou. No disse nada sobre minha gravidez nem sobre a criana. 
Foram dedues dela, e nem mesmo confirmei suas insinuaes. Mas ela falou que queria faz-lo pagar por t-la rejeitado.
E por que eu deveria acreditar em tudo isso?  questionou Angus, menos furioso.
        No me importo se acredita ou no em mim! 
Houve uma pausa tensa e silenciosa. Quando ele voltou a falar, pareceu muito mais calmo, mas ainda estava abalado.
        Vou embora agora, mas prometo voltar.
Assim que ficou sozinha, Lisa se deitou no sof, sentindo-se fraca. Aquela agitao toda no fizera nada bem ao beb. Ao senti-lo mexer-se em seu ventre, foi invadida 
por uma onda de instinto materno. No permitiria que aquilo ocorresse outra vez.
No sbado, saiu e foi fazer compras. Ao voltar para casa, no final da tarde, recebeu a visita de Paul, que passara por ali para entregar uma torta de frutas, que 
Ellie havia lhe mandado.
Estavam se despedindo quando a campainha tocou. Era Angus outra vez.
        Cheguei em m hora?  perguntou ele, com cinismo, entrando sem ser convidado e parando junto a Paul.  E voc, quem ?
        Paul Waterman. Lisa trabalha para mim.
Angus no aceitou a mo oferecida pelo outro homem, deixando o clima tenso.
        Sei. E vir at a casa dela  uma forma de melhorar as relaes humanas na empresa?
        Creio que no compreendi bem o que disse, rapaz.
Enrubescendo, Lisa posicionou-se do lado de seu patro, em uma atitude protetora, porm silenciosa.
Se estava de partida, no pretendemos prend-lo aqui  declarou Angus, estreitando os olhos.
Eu decido quando minhas visitas devem sair, sim? interrompeu Lisa.
Na verdade, eu estava mesmo de sada  falou Paul, desconcertado.  Mas acho que voc no se apresentou, rapaz.
Hamilton. Angus Hamilton.
Paul acenou com a cabea e se despediu.
Diga a Ellie que a torta estava maravilhosa. Adeus, e obrigada  falou Lisa, fechando a porta atrs dele.
Mas que relacionamento prximo, no? Que tipo de servio presta a ele? At onde vo suas obrigaes? insinuou Angus.
        Mas que ousadia!
E ento? Ainda no respondeu  minha pergunta. Esse sujeito costuma visit-la quando est sozinha em casa?
Esse sujeito  meu patro, e tambm um timo amigo. Ele veio aqui para trazer uma torta qus a esposa fez para mim, testando uma de minhas prprias receitas. Ela 
s no veio porque o filho caula deles est com catapora, e acharam arriscado me expor ao vrus. Paul no est se aproximando do garoto porque nunca teve tal doena, 
logo, no quer ser contaminado. Como v, no precisava haver sido rude.
Em vez de dar uma resposta indelicada, como sempre fazia, Angus pareceu ficar embaraado e sentou-se no sof, dizendo:
 Como pode me culpar? Primeiro me diz que no planejou engravidar, mas mesmo assim isso aconteceu na nica vez em que fizemos amor. Depois chego aqui e a encontro 
sozinha com um homem em casa. Sempre julguei que isso fosse impossvel para voc, por isso deduzi o pior.
Ora, para que tudo isso?  Lisa parecia desanimada.  No importa o que eu diga, porque vejo que no pretende mudar de opinio. Na verdade, no pretendo me defender. 
Apenas diga por que veio aqui e v embora.
Vim aqui hoje para lhe pedir desculpa  disse ele, deixando-a boquiaberta.


CAPTULO VII

Fui falar com Caroline  declarou Angus.  E ela me falou a verdade. Disse que os eventos no aconteceram como ela contou a princpio. Reconheo que me precipitei 
ao acus-la de ser manipuladora.
Entendo  disse Lisa, com frieza.
E s isso que vai dizer?  indagou ele.
Como queria que eu reagisse? Preferiria que eu gritasse de alvio por voc no me considerar mais como uma caadora de fortunas?  o que gostaria? Bem, detesto dizer 
isso, mas o pedido de desculpa no faz muita diferena depois que a ofensa j foi dita.
Entendo que esteja magoada  afirmou Angus , mas precisa entender que sou alvo constante de mulheres que, de repente, decidem melhorar de vida. Costumo detectar 
esse tipo de interesse a quilmetros de distncia  exagerou.  Quando Caroline apareceu com aquela histria, pensei que houvesse me enganado a seu respeito.
Oh, que timo  ironizou Lisa.
No pretendia facilitar as coisas para ele. No podia continuar encarando-o com os olhos de uma adolescente apaixonada. Afinal, tambm precisaria se preocupar 
com beb dali em diante.
        Posso tomar uma xcara de caf, por favor?  pediu Angus.
Lisa o olhou por um momento, como que desconfiada de que pudesse haver algo mais por trs do pedido. No iria cair na armadilha de comear a confiar nele.
Eu teria preparado caf antes, se imaginasse que voc pretendia ficar tanto tempo.
Precisamos conversar  declarou ele, seguindo-a at a cozinha.
Acho que sim.
Lisa preparou o caf com mos trmulas. No estava olhando para Angus, mas sentia a presena dele preenchendo completamente a atmosfera da cozinha.
Quando terminou de preparar o caf, levou a bandeja para a sala com ele logo atrs de si.
Voc ia me contar?  perguntou Angus, aps tomar o primeiro gole do lquido fumegante.
No sei. Talvez algum dia.  Lisa franziu o cenho.  No, provavelmente no  admitiu, por fim.  Nunca veria motivo para isso.
Angus colocou a xcara devagar sobre a mesa.
        Nunca? No iria contar  criana quem  o pai dela?
No  respondeu Lisa, com certo nervosismo, sabendo que no estava dizendo as coisas certas.  No tenho inteno de atrapalhar sua vida.
Vamos seguir mais adiante  sugeriu ele.  Partiremos do princpio de que minha vida j foi afetada.
Nesse caso, o aborrecimento no precisa ir alm disso. Quero apenas que saiba que no pretendo lhe cobrar nenhuma responsabilidade por essa criana. Cometemos um 
erro. Reconheo que no pensei direito e que nunca imaginei que acabaria engravidando.
Quer dizer que prefere que eu saia por aquela porta e nunca mais volte a procur-la?
Sim. Seria o melhor para todos ns.
Oh, claro que seria!  ironizou Angus.
Essa criana  responsabilidade minha  afirmou Lisa.  No tem nada a ver com voc.
O qu?  Ele se indignou.
Sei que voc  responsvel  admitiu ela.  Mas apenas tecnicamente. O que estou tentando dizer  que no tenho inteno de exigir nada ou de interferir err sua 
vida.
Quanta generosidade.  Ele manteve a ironia.
No posso competir com voc, Angus. Primeiro, fui acusada de engravidar para chantage-lo, e depois de fazer justamente o contrrio!
        Est sendo obtusa deliberadamente.
 No!
        Est evitando encarar a verdade da situao por que isso lhe  conveniente no momento.
 E qual  essa verdade?  Lisa o desafiou.
        Angus respirou fundo.
Voc se arrependeu pelo que aconteceu entre ns e quer que eu desaparea da face da Terra para conseguir esquecer o que compartilhamos. Lamento desapont-la, mas 
no tenho a mnima inteno de desaparecer como voc deseja. Afinal, tive cinqenta por cento de participao na concepo dessa criana.
Vou dar  luz esse beb  afirmou Lisa.  Sei que est com boa inteno, mas...
Mas ficar melhor sozinha?  completou Angus.
Lisa no respondeu nada. No adiantaria mais discutir com ele. Angus no estava disposto a aceitar nenhum de seus argumentos.
E ento?  insistiu ele.
Est bem.
Quanto voc recebe?
Isso no tem nada a ver com dinheiro!  replicou Lisa, furiosa.  Que diferena faz quanto ganho? Acha que ter uma casa luxuosa e viajar para outros pases todos 
os anos faria de mim uma me melhor? Acha que dinheiro compra tudo, Angus? Pois lamento muito se  assim que voc pensa!
Quanto?  Os olhos azuis continuaram fitando-a com a mesma frieza.  Acha mesmo que meu dinheiro no ajudaria a tornar a vida da criana mais confortvel?
No quero saber do seu dinheiro.
Mas no estamos falando de voc.
Tudo bem, ento. A resposta  sua pergunta  "no"! Aparecer aqui uma vez por ano com presentes caros no ajudar a aprimorar a qualidade de vida dessa criana. 
Pode achar que dinheiro  a soluo para tudo, mas est enganado. Utilizado erroneamente, ele desorienta a criana. No vou submeter meu filho a esse tipo de situao.
No vou aparecer aqui "uma vez por ano", como est sugerindo, com presentes para compensar minha ausncia. Vejo isso como uma atitude irresponsvel tanto quanto 
voc.  Ficando de p, foi at a janela e olhou para fora.  No, no  isso o que tenho em mente.
        Ento quais so seus planos?  indagou Lisa.
Angus no respondeu de imediato. Enfiando as mos nos bolsos da cala, continuou olhando para fora, parecendo pensativo.
Aquele silncio deixou Lisa ainda mais aborrecida. Preferia quando Angus respondia com sarcasmo do que quando ele ficava calado daquela maneira.
        Meu plano  que nos casemos  disse ele, por fim.
Devagar, virou-se para olh-la. Lisa estava plida.
        Parece surpresa  falou Angus, voltando a sentar-se no sof.
S pode estar brincando.
E o que acha?
Voc est louco, Angus.
Por qu? Se nos casarmos, nosso filho ser criado em um ambiente familiar normal. Nada de visitas ocasionais, nem presentes para compensar ausncias. Tem razo 
quando diz que dinheiro no torna uma pessoa melhor. Mas se souber utiliz-lo direito, ele facilita muito as coisas.
Angus, voc no est me ouvindo!
Est sozinha no mundo, Lisa. No tem uma famlia para ajud-la, se for preciso. Sente-se mesmo segura para dar  luz e criar esse filho sem o apoio de ningum?
Sei que isso parece assustador  admitiu ela.  E tambm sei que no ser um mar de rosas. Haver ocasies em que vou desejar ter algum do meu lado, mas...
Mas...?
Mas isso no  motivo para me casar com voc. Ser que voc no entende? No haveria amor no relacionamento, Angus. Alm disso, seu estilo de vida no combina com 
o de uma famlia. Cometeramos outro erro.
Pare de ser ingnua.
No estou sendo ingnua. S no quero me casar com voc.
Pensei que casamento estivesse no topo da lista de suas prioridades  disse Angus, com frieza.  E que relacionamentos com homens no fossem levados adiante a menos 
que voc estivesse com uma aliana no dedo.
Eu nunca disse isso!
Claro que disse. S que agora resolveu esquecer. Est to arrependida assim pelo que aconteceu entre ns?  Apesar de ele manter o mesmo tom de voz, no havia nem 
um pouco de gentileza em seu semblante.  No consegue nem pensar na idia de viver na mesma casa comigo?
        Seria um erro  Lisa insistiu.  Disse que um casamento entre ns ofereceria uma vida normal para nosso filho, mas isso no  verdade. O que h de normal 
em um casamento entre pessoas foradas a viver juntas por causa de uma criana? Acha que esse tipo de atmosfera traria felicidade?
Angus continuou a ouvi-la em silncio.
Pelo menos, meus pais se amavam  continuou Lisa.  Eu podia at detestar as constantes viagens e as mudanas, mas quando eu estava em casa com eles, sentia um amor 
familiar.
Nunca pensei que um dia fosse propor casamento a uma mulher que prefere se submeter sozinha a uma situao difcil do que ficar comigo. Puxa, ser que sou to terrvel 
assim?  Ele forou um sorriso.
Sinto muito. No quero que pense que no considero sua oferta generosa...
Mas ela no a interessa.
No.
Isso nos deixa com o problema de combinarmos um mtodo de visitas. Podemos fazer isso de uma maneira informal ou isso tambm no a interessa?
Aceito uma soluo informal.
        timo. Voltarei a entrar em contato com voc.
Dizendo isso, saiu do apartamento sem nem sequer se despedir dela.
Na segunda-feira, Lisa ficou surpresa quando Paul lhe perguntou sobre Angus. Geralmente, ele era mais reservado quanto a assuntos particulares. No perguntou se 
Angus era o pai da criana, mas Lisa contou a ele, j que percebeu que no havia motivo para continuar escondendo o fato.
        E ele vai sustentar a criana?  perguntou Paul.
Estavam sentados  mesa do escritrio dele, diante de alguns sanduches e duas xcaras de caf.
Ele quer ajudar  respondeu ela.
E voc considera isso surpreendente?
No.
Nesse caso, por que no foi procur-lo desde o incio da gravidez?
Porque...  Lisa hesitou.  Porque no queria que ele se sentisse obrigado a...
Mas ele tem responsabilidade no que aconteceu  afirmou Paul.
No alto padro de vida que ele mantm, no existe espao para mim.
E voc lamenta isso.
Claro que no!  protestou ela.
No quero me intrometer nas suas decises, Lisa, mas se no se importasse mesmo com Angus, estaria pouco ligando em arrasar ou no a vida dele. Sua nica preocupao 
seria o bem-estar do beb.
Lisa no disse nada, mas sabia que Paul tinha razo.
        Se precisar de algum lugar para descansar, meu chal est vazio e poder us-lo quando quiser.
Paul tinha um chal para passar as frias, em Lake District. Lisa j havia visitado o lugar e o achara bastante aconchegante.
        Obrigada, Paul.
Aps um breve silncio, voltou a abordar assuntos relacionados ao trabalho, e Paul aceitou a mudana sem nenhum questionamento.
Lisa voltou a se encontrar com Angus menos de uma semana depois. Ao v-lo  porta de seu apartamento, ela respirou fundo, preparando-se para discutir sobre os direitos 
que ele teria para visitar a criana. Passavam das sete horas da noite e ficou evidente que Angus fora para l direto do trabalho. Ainda estava vestido com o terno 
cinza e um elegante sobretudo preto.
Voc j jantou?  perguntou ele, assim que entrou na sala.
Eu estava me preparando para jantar.
Ento vista um casaco. Iremos jantar fora.
Por qu?
Angus sorriu com seu costumeiro charme, parecendo surpreso com a pergunta.
Essa no foi uma resposta muito graciosa  disse a Lisa.
Desculpe-me, mas  que pensei que iramos apenas discutir aquele assunto que ficou pendente da ltima vez em que nos encontramos. No h necessidade de sairmos 
juntos.
Tem razo. Mas teremos de nos acostumar a encontros ainda que passageiros de agora em diante. Acho melhor tentarmos manter um mnimo de amizade. Ou isso  pedir 
demais?
No, claro que no.  Reconhecendo que Angus estava certo, acrescentou:  Vou vestir o casaco. Estarei pronta em um minuto.
Jantaram em um agradvel restaurante italiano. Lisa no comia fora havia anos e adorou aquele ambiente aconchegante e extico ao mesmo tempo.
Durante a refeio, Angus mostrou a ela as fotos das ilhas que haviam visitado no Caribe. Lilly as enviara, porque, segundo Angus explicou, ele nunca lembrava 
de levar uma mquina fotogrfica nas viagens que fazia.
        No gosto de ficar fazendo todos aqueles ajustes antes de bater a foto  confessou ele.  Minha me  que adora carregar mquinas assim para ficar tirando 
fotos das flores tpicas de cada regio.
Lisa sorriu. Quando Angus conversava daquela maneira informal, sem o ar de cinismo que demonstrava quando era contrariado, ela sentia-se bem mais  vontade.
Somente quando voltaram para o apartamento foi que comearam a falar sobre o beb.
E quanto aos acertos sobre as visitas que voc poder fazer  criana?  perguntou Lisa.  Ainda no falamos sobre isso.
Oh, tem razo.  Angus olhou para o relgio.  J est tarde. Talvez possamos conversar sobre isso no sbado. Tudo bem para voc?
No tenho certeza.
Por qu? Vai sair para algum lugar? Poderemos marcar para um outro dia, se preferir.
No. Acho que no sbado no haver problema.
Ento est combinado. Telefonarei por volta das sete e meia, est bem?
Lisa assentiu. Em seguida, Angus voltou para o carro e partiu, aps um breve aceno.
Lisa no entendeu por que sentiu-se inquieta durante o resto da noite. Angus havia sido gentil durante o jantar, tentando manter uma atmosfera de amizade entre 
eles.
Durante os dias que se seguiram, convenceu-se de que os dois conseguiriam manter um mnimo de contato pelo bem do beb. Afinal, eram adultos e sabiam o quanto a 
presena dos pais era importante para uma criana.
Quando soubera da gravidez, Angus se mostrara aborrecido com ela. Mas, com o passar dos dias, parecia estar aceitando cada vez mais o fato de que em breve se tornaria 
pai. O modo como ele se referia  gravidez e ao beb deixava aquilo cada vez mais evidente. Vindo de Angus Hamilton, tratava-se de uma verdadeira vitria, pensou 
Lisa.
Por outro lado, a questo do casamento era algo que no ficara muito resolvido entre eles. Quando ela recusara a proposta, no deixara de perceber que Angus no 
tentara argumentar muito, para convenc-la do contrrio.
Depois que a idia fora descartada, ele no voltara a tocar no assunto, preferindo manter apenas aqueles encontros casuais. Bem, pelo menos j estavam conseguindo 
conversar sem discutir, o que no deixava de ser um grande progresso.
Cus, sua gravidez j estava entrando no oitavo ms. Apesar de todas as preocupaes que tivera nos ltimos tempos, era impressionante constatar que os meses haviam 
se passado to rapidamente. Em breve, teria seu filho nos braos.
J havia visitado a maternidade, para saber onde iria ter a criana. A viso do lugar a deixara um pouco apreensiva, mas ela logo se convenceu de que a expectativa 
de ter seu filho era mais importante do que qualquer outra coisa.
Na vez seguinte em que se encontrou com Angus, os dois foram jantar em outro restaurante. Dessa vez, a msica estava mais alta e atmosfera no era to calma quanto 
no anterior, mas Lisa disse a si mesma que no ficaria irritada nem impaciente. Faria o esforo pelo bem do beb.
Contou a Angus que ficaria no trabalho apenas por mais uma semana, mas que iria voltar assim que se recuperasse do parto. Precisava do dinheiro para sustentar o 
filho e no poderia se dar ao luxo de abrir mo daquilo. Quando estava deitada na cama, horas depois, ela se deu conta de que Angus no havia tentado argumentar 
ao ouvir sua opinio. Em vez disso, ele se limitara a aceitar sua deciso e falara sobre os benefcios que as gestantes recebiam na empresa.
Lembrou-se tambm de que mais uma vez haviam deixado de discutir sobre a freqncia com que ele visitaria o filho. Aquilo j estava se tornando ridculo!
No prximo encontro, o assunto no lhe escaparia da memria.

CAPITULO VIII

Lisa viu-se obrigada a admitir que cometera um grande erro ao deixar tudo para a ltima hora. Os amigos a haviam presenteado com algumas peas ao longo dos meses, 
que ela guardara em uma gaveta do guarda-roupa.
Entretanto, o bero, a banheira e outros detalhes necessrios no enxoval de um beb haviam sido deixados para o final da gravidez.
A princpio, porque ela no quisera pensar naqueles detalhes. Alm do mais, nove meses parecia um longo tempo, e Lisa repetira muitas vezes para si mesma que seriam 
mais do que suficiente para providenciar tudo.
Porm, conforme foi se apegando cada vez mais  vida que estava se formando dentro dela, comeou a cogitar a possibilidade de comprar com capricho o restante do 
enxoval.
Apesar disso, em certos momentos flagrava-se angustiada com a perspectiva de ter de cuidar do beb sozinha, depois que ele nascesse. Para seu espanto, no imaginou 
que fosse se cansar to facilmente no estgio final da gravidez.
Mas ainda teria de continuar trabalhando por alguns dias, pensou, enquanto tomava o desjejum, no sbado de manh.
Pelo menos tivera o bom senso de economizar ao longo da gestao. Poderia tranqilamente comprar o bero e a banheira com o que tinha guardado no banco. Quanto s 
roupinhas, nem precisaria se incomodar porque os amigos j haviam presenteado o beb com o que ele precisaria vestir nos primeiros meses.
Tomando outro gole de caf, lembrou-se de como sua gravidez fora tranqila desde o incio, exceto por alguns poucos enjos matinais nos trs primeiros meses. Desde 
alguns dias, porm, o que vinha lhe incomodando era aquela estranha letargia. Os caminhos pareciam duas vezes mais longos do que o normal quando ela tinha de percorr-los. 
Nunca reclamava porque tinha conscincia de que no poderia culpar nada nem ningum pelo que lhe acontecera.
Aps o desjejum, foi at o banheiro e escovou os cabelos, antes de se olhar no espelho durante algum tempo. Apesar da gravidez adiantada, sua aparncia no estava 
nada ruim. Sua pele continuava aveludada e um brilho diferente surgira em seus olhos.
Com um suspiro, jogou a bolsa sobre o ombro e pegou a chave, preparando-se para sair. Porm, assim que abriu a porta, deparou-se com Angus do lado de fora.
        H quanto tempo est a?  perguntou, espantada.
Desejou que seu corao fosse to pragmtico quanto sua mente. S de v-lo, sentiu a pulsao acelerar e a respirao se tornar mais difcil.
Eu estava prestes a tocar a campainha  explicou ele.
Oh.  Lisa saiu e fechou a porta com firmeza.  Como pode ver, eu estava de sada. Acho que ter de voltar depois, se quiser conversar. Deveria ter telefonado antes.
Quando comeou a andar devagar em direo ao carro, Angus a seguiu.
        Onde est indo?
A frase soou mais como um comando do que como um questionamento aos ouvidos de Lisa. Vinda de algum acostumado a dar ordens e a ser obedecido, aquele tom de voz 
no era de se estranhar.
Vou fazer compras  respondeu, sem olhar para ele.  Ainda h alguns itens que preciso comprar para o enxoval.
Irei com voc.
Antes que ela pudesse protestai, Angus segurou-a pelo brao e levou-a para o carro dele.
Nem pense em protestar e discutir comigo  avisou, mantendo o tom de voz firme.  Agora que finalmente se deu conta de que o beb precisar de coisas como um bero, 
por exemplo, vou acompanh-la, quer voc queira ou no.
Como sabe...?  indagou Lisa, enrubescendo.
Sei que no tem o bero porque observei seu apartamento.
Ficou bisbilhotando o que havia no meu apartamento?  ela perguntou, indignada.
Nem foi preciso  respondeu Angus, com calma.  Ele  to pequeno que bastou eu sentar na sala para ter um bom ngulo de viso de todos os cmodos.
Abriu a porta do passageiro para ela. Lisa entrou no carro, sabendo que no adiantaria protestar.
Para onde iremos?  perguntou ele, ao sentar-se atrs do volante.
Para Reading, por favor. H algumas lojas de departamento infantil por l.
        Ento iremos  Harrods.
Lisa arregalou os olhos.
        Nem pensar! No posso pagar os artigos de luxo da Harrods!
        Mas eu posso  salientou Angus.
Dizendo isso, colocou o carro em movimento.
No pode querer controlar a situao desse jeito, Angus  contestou Lisa.
Claro que posso. Iremos  Harrods e pagarei o que voc escolher. Portanto, no se preocupe com os gastos.
Voc  mesmo impossvel!  resmungou Lisa, por entre os dentes.
Olhando pela janela, observou a paisagem de Berkshire, de onde saa uma rede de estradas para Londres.
Posso sentir que est prestes a explodir  afirmou Angus, a certa altura do trajeto, mantendo um brilho de divertimento no olhar.  Isso no  bom para algum na 
sua condio, sabia? Ou est querendo ter um parto prematuro?
Farei questo de livr-lo da experincia, pode deixar  replicou Lisa, com sarcasmo.
Eu lhe disse que pretendia cumprir minha parte de responsabilidade nessa gravidez  lembrou Angus.  No entendo por que tanta resistncia em que eu compre alguns 
itens para o beb.
Quero compr-los sozinha!
Oua, Lisa, no quero discutir com voc toda vez que surgir algum assunto ligado a dinheiro. Precisa aceitar que tenho uma boa condio de vida e que darei o melhor 
para nosso filho, quer voc goste ou no.
Lisa permaneceu em silncio at chegarem  rea central de Londres.
        Onde pretende estacionar?  perguntou a ele, sabendo que ali seria impossvel encontrar alguma vaga quela hora do dia.
Angus sorriu, sem olhar para ela.
Nada que um telefonema no possa resolver.  Aps falar ao telefone por alguns segundos, desligou.  Pronto. George ir nos encontrar na frente da Harrods e levar 
o carro.
E muito conveniente ter um chofer assim, sempre  sua disposio  afirmou Lisa, sem conseguir disfarar o ar irnico.
        Tambm acho  anuiu Angus, ignorando o sarcasmo.
Lisa cravou as unhas na palma das mos. Como Angus conseguia se manter imune s suas preocupaes quando tudo que ela queria era que discutissem as visitas para 
que ele fosse embora de uma vez?
Quando chegaram  loja de departamentos, o fiel George os esperava no lugar combinado. Ele conduziu o carro assim que os dois saram, para que no atrapalhassem 
o trnsito.
Assim que entraram no andar trreo, especializado em artigos infantis, Angus perguntou:
        Por onde comearemos?
Lisa disse a ele qual os itens que pretendia comprar, e os dois comearam a escolher o bero. Ela no fazia idia de que existisse tanta variedade de modelos. Alguns 
deles pareciam verdadeiras peas de arte.
Angus havia dito para ela no se incomodar com preos, mas, ainda assim, ficou alarmada com o custo de alguns mveis.
Somente depois de algum tempo, foi que Lisa acabou se dando conta de que estava gostando de compartilhar aquilo com Angus.
Por que tudo no pudera ser diferente? - perguntou-se. Por que fora se apaixonar justamente por algum to longe de seu alcance como Angus Hamilton? Por que no 
se encantara por um homem do mesmo nvel social que o dela?
Ao levantar a vista, percebeu que ele a estava observando com ateno. Forando um sorriso, fez um sinal para seguirem em frente, pelo corredor que dividia as 
lojas.
O bero que escolheram no era dos mais caros, mas chegava bem perto deles no preo. Depois disso, saram  procura dos outros itens. Enquanto pesquisavam, Lisa 
viu tantas peas de enxoval tentadoramente graciosas que no resistiu e acabou escolhendo vrias delas. A hora do almoo, j estava cansada de andar e ciente do 
quanto Angus havia gasto desde a manh.
Almoaram em uma lanchonete da prpria loja. Lisa pediu apenas um sanduche natural e um suco de laranja.
        Pensei que as grvidas comessem por dois  falou Angus, surpreso.
Lisa riu, fitando-o nos olhos por um momento, antes de abaixar a vista. Chegava a ser quase doloroso olhar para aquele rosto bonito e saber que Angus nunca poderia 
ser seu.
 difcil comer bem quando se est neste estgio da gravidez  explicou ela, mordendo um pedao do sanduche.  Digamos que no h muito lugar para a comida. Acho 
mais fcil comer frutas, sanduches e coisas desse tipo.
E como est seu humor?  indagou ele, comendo uma poro de batatas fritas.  Vi quando voc ficou olhando as vitrines como uma pequena rf que de repente se viu 
em meio a uma enorme loja de brinquedos.
No estou acostumada a toda essa extravagncia.  Lisa sorriu.  Fico tentando no me importar com o preo dos artigos, mas no consigo fazer isso por muito tempo.
Eu lhe disse para no se preocupar.
Eu sei  anuiu ela.
Pelo menos est se divertindo?  perguntou Angus, inclinando-se para a frente e fitando-a com mais interesse.
Quando ele a olhava daquela maneira, era como se no existisse mais ningum em torno deles. Lisa sentiu o corao acelerar.
Sim, estou  respondeu, por fim.
timo.  Angus sorriu, com charme.   mais fcil escolher coisas assim com algum do lado, no? Compartilhar opinies  sempre algo saudvel.
Pode ser. Mas se eu estivesse sozinha, no teria tantas opes de escolha. E mais fcil dividir responsabilidades, mas nem sempre isso  possvel.
No nosso caso  possvel, sim. Case-se comigo, Lisa.
Ela umedeceu os lbios, ajeitando-se melhor na cadeira. Seria aquele o motivo pelo qual Angus a vinha tratando com tanta gentileza nos ltimos dias? Convenc-la 
a se casar com ele, possivelmente para evitar um escndalo.
No posso aceitar, Angus  respondeu, num fio de voz.
Por que no? No provei que podemos nos dar bem e que no sou nenhum monstro?
Eu nunca disse que voc era.
Para ele, era fcil dizer que se dariam bem, pensou Lisa. Mas a verdade seria muito diferente, se ela aceitasse a proposta.
No passado, pensara que um lar e uma certa estabilidade financeira seriam suficientes para manter uma atmosfera familiar saudvel. Porm, depois que conhecera Angus 
e se apaixonara, descobrira que havia outras coisas muito mais importantes em jogo. Como o amor para embasar o relacionamento, por exemplo.
Est perdendo seu tempo, Angus  declarou, mantendo o tom de voz firme.  E no vai me persuadir a enxergar a situao sob o seu ponto de vista.
Se me mostrasse pelo menos uma razo plausvel para no querer se casar comigo, eu entenderia.
Mas eu j fiz isso!
Tudo que fez foi mencionar que, se nos casssemos, nosso filho seria criado em um ambiente pouco saudvel. Mas quando estamos juntos, no caso de no haver notado, 
voc se diverte e sente-se  vontade.
Voc no entende, Angus. A questo no  to simples assim.
Ela fica simples ou complicada dependendo do modo como a encaramos  argumentou ele.
No entendo por que quer tanto se casar comigo
        falou Lisa.  Quero dizer, casamento nunca foi algo que estivesse em nossos planos.
 verdade  concordou ele.
Ento.
Ento o qu?
Pode tentar entender como estou me sentindo. Respirando fundo, prosseguiu:  Tivemos um caso, Angus. No foi nem mesmo um relacionamento! Algo que, sob circunstncias 
normais, terminaria naturalmente depois de algumas semanas. Exceto por um detalhe inesperado.
Algo que no pode ser ignorado, Lisa  declarou ele.
Sei disso. Mas um casamento entre ns ser uma atitude muito extremada, no acha?
Ser a soluo para uma situao extremada.
No, Angus. Quer se casar comigo porque  uma pessoa importante, e um filho ilegtimo lhe traria problemas profissionais.
Um sorriso frustrado curvou ligeiramente os lbios dele.
Posso saber de onde tirou essa idia absurda?
Bem, Caroline...
Ah, eu deveria ter imaginado que Caroline estava metida nisso. Ela vive para se exibir para os outros, Lisa, mas eu no. No me importo com o que o resto do mundo 
pense a meu respeito porque no vivo me preocupando com os outros.
Ento por qu...?
Porque esse filho  meu. Nunca pensei em me casar e em ter filhos, pelo menos no em um futuro prximo. Tambm nunca pensei em como me sentiria se soubesse que iria 
ser pai.
Entendo o que quer dizer, mas...
Mas no se pode ter um casamento sem os detalhes de sempre, certo?  Angus completou por ela.  Declaraes de amor, longos beijos, abraos apaixonados e coisas 
desse tipo. Est bem, ento. Case comigo, Lisa, eu te amo.
Por um momento, foi como se o tempo houvesse parado para ela. Chegou a sentir uma agradvel onda de felicidade, mas esta logo se esvaiu. Claro que aquelas palavras 
eram vazias. Angus no fora sincero ao proferi-las.
 Acho melhor irmos embora  sugeriu.  Estou comeando a ficar cansada.
Ele no respondeu nada. Utilizando o telefone celular, ligou para George e pediu a ele que os apanhasse novamente na frente da loja.
No falou mais nada sobre casamento at estarem no banco traseiro do carro. Voltando-se para ela, disse que ainda estava esperando uma resposta.
        No vou desistir, Lisa. Nunca desisto daquilo que quero.
E voc quer esse filho  afirmou ela.
Isso mesmo.
Em uma ltima tentativa de argumentar, Lisa perguntou:
        E se voc se apaixonar por algum depois que estivermos casados? E se isso acontecer comigo?
        No pode conduzir sua vida baseando-se em suposies desse tipo. E se esse carro cair de uma ponte conosco dentro dele? E se a Terceira Guerra Mundial eclodir, 
e o mundo inteiro acabar em fumaa? Esse tipo de raciocnio pode ir muito longe.
        Essas coisas tm pouca chance de acontecer. E mais provvel que...
        Depois de se casar comigo acabe se apaixonando por outro homem e sentindo-se presa em uma armadilha armada por mim?
Lisa no respondeu. Sabia que no havia possibilidade de isso acontecer porque j era loucamente apaixonada por ele.
 E se voc se interessar por outra mulher.  
 Poder pedir o divrcio e ter a custdia de nosso filho. Aceitarei qualquer que seja sua deciso.
 Nunca pensei... que algum dia eu teria de considerar esse tipo de deciso na minha vida.
Pensou que havia aprendido durante a infncia e a adolescncia tudo que era preciso para ter uma vida estvel e feliz, certo?
Sim  confessou Lisa, embaraada com sua ingenuidade.
Sabe menos do que pensa a respeito disso.
No perteno ao seu crculo social, Angus.  Aps um momento de hesitao, perguntou:  Pode me dar um tempo para pensar? Telefonarei para voc.
No, eu telefonarei  ressaltou ele.
No confia em mim?
Lisa no conteve um riso, e Angus o retribuiu.
        No em assuntos desse tipo  explicou ele.  Irei visit-la na quarta-feira.
Quando George parou o carro diante do prdio, Angus ajudou-a a levar os pacotes at o apartamento dela. Lisa mal podia esperar para ficar sozinha e poder pensar 
com mais clareza, longe dele.
O bero e a banheira seriam entregues na segunda-feira, segundo ficara combinado.
Angus deixou as sacolas sobre o sof. Antes de sair, aproximou-se de Lisa e disse:
        Procure descansar.
Para surpresa dela, Angus pousou as mos em sua barriga e acariciou-a por alguns segundos.
        Est bem  respondeu ela, num fio de voz.
Depois que Angus saiu, ela foi at a janela e ficou olhando ele se acomodar no banco traseiro do carro e se inclinar para dizer algo a George.
Continuou olhando atravs da janela at o veculo desaparecer de vista. E mesmo depois disso, continuou no mesmo lugar durante algum tempo. Onde seria a casa de 
Angus? Como seria a decorao? Havia muitos detalhes que no sabia a respeito dele.
Lisa passou o resto da tarde e do fim de semana ajeitando os itens do enxoval do beb que haviam sido guardados em uma gaveta ao longo dos meses.
Na segunda-feira, telefonou para Paul assim que acordou e perguntou se a oferta do chal continuava valendo.
No acha que a gravidez est muito adiantada para voc viajar?  perguntou ele, preocupado.
Eu gostaria muito de ir para l descansar, Paul. Preciso ficar longe da cidade por alguns dias.
No tinha certeza se ajudaria ficar em um lugar diferente, mas talvez funcionasse. Ficando sozinha, talvez conseguisse pensar com mais clareza antes de tomar alguma 
deciso.
Vai estar bem frio por l  avisou Paul.
No tem importncia. Estarei de volta na quarta-feira  tarde.
Percebeu que Paul estava pensativo do outro lado da linha. Porm, acabou cedendo o chal para ela. Pediu a Lisa que passasse pela casa dele para pegar as chaves 
e os lanches que Ellie iria fazer questo de preparar para ela. Lisa sorriu e agradeceu, antes de desligar.
No dia seguinte, passou pela residncia de Paul por volta das dez horas da manh. Alm de pegar as chaves, levou consigo uma cesta com suprimentos mais do que suficientes 
para sua breve estada no chal.
Ellie a censurou por querer viajar em um estgio to avanado da gravidez, mas Lisa sorriu e garantiu que no haveria problema.
        Tomarei cuidado  prometeu.  Quando chegar l, garanto que farei todo aquele ritual das grvidas de ficar com as pernas para cima e tudo mais. Alm disso, 
no terei de cozinhar. Muito obrigada por tudo, Ellie.
Porm, ao olhar pelo espelho retrovisor enquanto partia, notou que o semblante de Ellie continuava exibindo um ar de preocupao.
CAPITULO IX

A viagem foi at bastante agradvel. Lisa parou em todos os postos da estrada para andar um pouco e se distrair, olhando os suvenires que se encontravam  venda.
Em uma das paradas, aproveitou para comer um dos sanduches que Ellie lhe mandara. Estava simplesmente maravilhoso.
Chegou ao chal pouco depois das trs e meia da tarde. O local continuava exatamente como ela se lembrava, com muita vegetao e silncio em volta. De fato, Paul 
escolhera um timo lugar para ter uma residncia de frias.
O chal era espaoso, rnas aconchegante, com sala, cozinha e trs quartos. Na sala, a grande lareira fazia lembrar que o inverno era rigoroso na regio.
Antes mesmo de desfazer a mala, Lisa ligou o aquecimento central. Depois de arrumar a bagagem em um dos quartos e organizar os lanches na cozinha, a casa j estava 
aquecida o suficiente para ela tirar o casaco e ficar apenas de cala e suter.
Junto com os sanduches, Ellie enviara leite, ovos, po, vrias latas de conserva, caf e suco. Lisa disse a si mesma que compraria uma grande cesta de flores para 
ela no trajeto de volta para casa.
s cinco horas da tarde, a regio j estava escura. Pegando um cobertor, Lisa acomodou-se no sof e pousou a mo na barriga, tornando-se pensativa.
Aos poucos, seus pensamentos se voltaram para o passado. Lembrou-se de fatos de sua infncia e dos momentos felizes que vivera naquela poca de sua vida.
O futuro estvel com o qual comeara a sonhar desde aquela poca simplesmente no se realizara. O destino enviara-lhe Angus Hamilton e por j saber qual seria sua 
resposta  proposta que ele lhe fizera, comeou a enumerar os motivos pelos quais decidira se casar.
No podia ignorar a existncia de Angus e continuar sua vida como se no o houvesse conhecido. Mesmo que nunca mais pudessem se ver por algum motivo, sua vida nunca 
mais seria a mesma. Angus a preenchera com uma espcie de paixo incontida que ela nunca conheceria de outra maneira.
E era justamente esse o maior problema. Angus modificara sua vida, e ela nunca mais seria a mesma, quer ele continuasse fazendo parte dela ou no.
De certa forma, Angus a transformara em uma pessoa que ela nunca imaginara que poderia ser. Descobrira em seu ntimo uma intensa alegria de viver e uma paixo 
por novidades. Talvez houvesse herdado aquilo dos pais, mas fora ele quem a fizera descobrir esse seu lado aventureiro.
Depois das sete horas da noite, voltou a se alimentar, dessa vez com uma das conservas que Ellie mandara e um pouco de macarro guardado na despensa. Ellie e Paul 
sempre mantinham alimentos bsicos guardados no chal, j que faziam constantes visitas ao local.
Quando terminou a refeio, voltou para a sala, decidindo ler um pouco. Ellie e Paul faziam questo de no manter nenhuma tev no chal, apesar dos constantes pedidos 
das crianas. Segundo eles, aquele era um lugar para se descansar e assistir  tev no contribua nem um pouco para isso.
Lisa concordava plenamente. Uma tev no fazia a menor falta em meio quela atmosfera tranqila. Quando comeou a sentir sono, foi para o quarto. Depois de tomar 
um banho relaxante, deitou sob os cobertores.
O teto parcialmente de vidro permitia uma bonita viso do cu estrelado. Enviou uma prece silenciosa s estrelas, pedindo que iluminassem seu futuro, para que sua 
vida ao lado de Angus lhe trouxesse a felicidade com a qual ela sonhava desde a infncia.
Quando acordou, no teve noo de quantas horas haviam se passado. Por uma frao de segundos, nem sequer reconheceu onde estava, chegando a sentir um instante de 
pnico.
Ao fechar os olhos novamente, aos poucos sua mente foi clareando at que, de repente, deu-se conta do que a acordara. Contraes!
 Oh, meu Deus...
Levantou-se com dificuldade e, ao tentar se apoiar, acabou acionando o despertador sobre a mesinha-de-cabeceira. O susto causado pelo barulho repentino a fez se 
sobressaltar, mas ela conseguiu desligar o aparelho depois de acender o abajur.
Outra contrao a fez se encolher por um instante, aumentando seu pnico. Deus, o que faria ali sozinha? Naquele lugar isolado? Estava entrando em trabalho de parto 
e no tinha ningum para socorr-la!
O beb se adiantara, apesar do aviso do mdico de que o nascimento seria dali a duas semanas.
Encaminhou-se para a sala, andando bem devagar por causa da dor. Pegou o telefone, mas suas mos comearam a tremer quando ela se deu conta de que o aparelho estava 
sem linha. Nem passara por sua cabea verificar se o telefone estava funcionando, quando chegara  tarde.
A nova contrao provocou-lhe uma descarga de adrenalina. Sem hesitar, pegou as chaves do carro e a bolsa. Vestiu o casaco e saiu para a noite fria. Quando entrou 
no carro e comeou a manobr-lo, outra contrao intensa a fez frear de repente. Para seu maior terror, percebeu que no conseguiria ir a lugar algum.
Desesperada, saiu com dificuldade e deitou no banco de trs, pensando que fosse desmaiar. As contraes estavam se tornando cada vez mais fortes e repetitivas. A 
dor nem a deixava pensar direito.
Foi ento que avistou os faris de um carro se aproximando pela estrada e freando logo atrs do dela. No tinha idia de quem poderia ser, mas, sem dvida, fora 
algum enviado pelos cus.
Cerrou os dentes, tomada por outra contrao. No demorou muito para ouvir uma exclamao abafada do lado de fora do carro.
Ao abrir os olhos, deparou-se com o rosto familiar de Angus. Com gestos decididos, ele carregou-a de volta para a casa e deitou-a no sof.
Quanto tempo faz que est assim?  perguntou a ela.  J telefonou para o hospital?
Est sem linha  explicou Lisa, com um gemido.
Droga!  resmungou ele.  No se mexa, eu j volto.
"No se mexer?", pensou Lisa. Para onde Angus pensava que ela conseguiria ir daquele jeito?
S ento lhe ocorreu de que ela no fazia a mnima idia do que o levara at ali. De qualquer maneira, isso pouco importava no momento. Angus fora seu salvador.
Mesmo em meio  dor, lembrou-se das aulas do pr-natal, quando ela e outras mulheres grvidas sentavam-se em crculo para discutir o efeito de anestsicos. Que piada! 
Em pleno trabalho de parto, no meio daquele fim de mundo, seu nico anestsico estava sendo o travesseiro, que mordia com toda fora a cada nova contrao.
        A ambulncia j est a caminho  avisou Angus.  Liguei para o hospital usando o telefone do carro.
A voz dele chegou como que vinda de um lugar distante, e Lisa apenas assentiu.
        Agente firme, querida  pediu ele, segurando a mo dela.  Logo a ambulncia estar aqui.
Ele a chamara mesmo de "querida"? - Lisa se perguntou, mas no teve certeza. Mal estava conseguindo respirar e ouvir se tornara algo bastante secundrio.
Apertando a mo dele com mais fora, balbuciou:
Angus, eu decidi...
No fale nada, Lisa. Poupe suas foras.
Mas Angus...
Depois, meu amor. Depois.
Oua!  bradou ela, com o que lhe restava de foras.  O beb! J est nascendo!
Depois disso, os eventos se sucederam com tanta rapidez que Lisa nem chegou a perceb-los com nitidez. Ficou surpresa quando, a certa altura, olhou para Angus e 
viu que ele continuava calmo, sem nenhum sinal de pnico no olhar.
A natureza seguiu seu curso natural... e doloroso.
        Est indo muito bem, querida  disse Angus, para tranqiliz-la.
O beb acabou nascendo no momento em que a ambulncia havia acabado de parar diante do chal. Em meio  agitao que se seguiu, Lisa lanou um olhar questionador 
para Angus.
        Temos uma menina  respondeu ele, entendendo a pergunta nos olhos dela.
As duas foram levadas para o hospital, com Angus seguindo a ambulncia em seu prprio carro. Haviam embrulhado a criana em um lenol macio e deixaram-na ao lado 
da me durante todo o trajeto.
Lisa mal conseguia acreditar que estivesse com sua filha nos braos. Toda a dor e o pnico que passara pareciam muito distantes diante daquele rostinho com olhos 
apertados.
        Teremos de separ-la de voc  avisou um dos homens com uniforme branco.  Mas s por alguns minutos. Os mdicos precisam examin-la. No  todo dia que 
vamos atender a um chamado e quando chegamos l o beb j nasceu  brincou ele.
Durante os minutos seguintes, os mdicos examinaram no apenas o beb, mas ela tambm. Cumprimentaram-na com sorrisos e elogios.
Lisa no entendeu aquilo. Eles a estavam tratando como uma herona nacional, em vez de uma idiota que fizera a besteira de viajar para um chal no fim do mundo quando 
estava perto de dar  luz!
Onde est Angus?  perguntou a um dos mdicos.
Oh, o rapaz? Est na sala de espera. Ele queria vir na ambulncia, segundo me disseram, mas no havia espao, e ele a seguiu com o prprio carro. Ele poder v-la 
assim que terminarmos o exame.
Durante os minutos seguintes, o mdico elogiou o que Angus havia feito.
        Conversei com ele ainda h pouco, e est muito mais calmo do que eu quando fiz meu primeiro parto!  brincou ele.
Quando Angus entrou no quarto, minutos depois, Lisa no soube o que dizer. Ele parecia cansado, embora estivesse com um brilho de felicidade no olhar.
        Parece que teve uma noite difcil  disse ela, por fim.
Angus colocou uma cadeira ao lado da cama e sentou-se, segurando a mo dela.
Minha noite no foi nem um pouco fcil  confirmou ele.  Mas lhe contarei essa histria em outra ocasio  brincou.  Como est se sentindo?
Muito bem  respondeu Lisa.  Levaram o beb para fazer alguns exames.
Eu sei. Eu a vi. Agora que estamos sozinhos, quero aproveitar para lhe fazer algumas perguntas.
J sei  disse ela.  Vai perguntar por que fui para o chal de Paul.
Isso mesmo.
Eu precisava pensar. No fazia idia de que acabaria fazendo muito mais do que isso.
Lisa no conseguiu conter o riso. Estava com tanta vontade de dizer o quanto o amava que quase confessou seu sentimento. No saber qual seria a reao de Angus 
foi o nico fato que a deteve. No queria nenhuma mancha na lembrana daquele dia.
Como soube que eu estava l?
Recebi um telefonema da Harrods.
Harrods?  Lisa franziu o cenho.
Sim. Eles tentaram fazer a entrega do bero e da banheira, mas no havia ningum no seu apartamento, ento telefonaram para meu escritrio. Fiquei confuso porque 
tinha certeza de que voc no pretendia sair para longe. Ento telefonei para seu chefe. Talvez ele soubesse onde voc estava.
E Paul lhe contou tudo.
Nem preciso dizer que ele ouviu poucas e boas por haver deixado que voc viajasse naquelas condies. Deixei o que estava fazendo e fui ao seu encontro imediatamente. 
Lisa sorriu.
        Fico contente que tenha sido impulsivo. No sei o que teria sido de mim se...
Ela foi interrompida por uma batida  porta. Uma enfermeira entrou carregando um bercinho que foi encaixado ao lado da cama de Lisa.
Com um sorriso, a enfermeira os informou de que estava tudo bem com a criana. Provavelmente, ela dormiria por mais uma hora e acordaria para a primeira mamada. 
Lisa deveria cham-la se precisasse de alguma coisa.
Quando ficaram sozinhos, os dois olharam para a filha, com ar de adorao. Lisa queria guardar na lembrana cada detalhe da expresso de Angus. Ainda no mencionara 
nada sobre sua deciso quanto ao casamento por receio de quebrar a magia que os envolvera desde o nascimento da filha. Porm, no deixara de notar que ele no 
a chamara mais de "querida".
Que nome daremos a ela?  perguntou a Angus.
J havia pensado em algum?  disse ele, sem desviar os olhos do beb adormecido.
Sim. Emily, que era o nome da minha me.
Ento ser Emily Susan  completou Angus.
Por qu?
Porque esse era o nome da minha av.
Lisa adorou o nome. Aps um momento de silncio, voltou a falar com certa hesitao.
        Angus, sei que teremos de discutir isso, portanto,  melhor que seja agora. O motivo que me levou para o chal de Paul foi o desejo de pensar com calma 
na proposta que voc me fez.
Ele no disse nada. Mantendo-se em silncio, aproximou-se da janela do quarto e olhou para fora.
        Eu estava muito confusa  continuou Lisa.  Nem preciso dizer como me senti ao descobrir que estava grvida.
Olhou para a filha, adormecida a seu lado, e no conseguiu sequer imaginar a possibilidade de aquela linda criaturinha no ser bem-vinda.
Ao levantar a vista novamente, notou que Angus a observava em silncio, esperando que ela continuasse o que tinha a dizer.
No incio, fiquei aturdida, sem saber o que fazer ou a quem recorrer  prosseguiu.
Poderia ter tomado a atitude mais bvia e ido me procurar  falou ele.
Lisa forou um sorriso.
Eu podia mesmo fazer isso? Ns mal nos conhecamos, Angus.
Algumas pessoas diriam que nos conhecamos at bem demais  ironizou ele.
No sou nenhuma idiota. Eu sabia que o fato de havermos dormido juntos fora apenas uma rendio mtua a um impulso do momento.
Lisa sorriu consigo. Parecia estranho pensar que um dia ela chegara a ser tmida e insegura.
        Nunca imaginei que as coisas iriam to longe  confessou, com um suspiro.  Por outro lado, sempre tive noo de que pertencemos a mundos muito diferentes. 
No havia como existir algo duradouro entre ns.
Arriscou um olhar na direo dele, mas o semblante de Angus continuava impassvel.
Voc fugiu  declarou ele, quebrando o silncio.
Sim  admitiu Lisa.  Fugi porque voc havia sugerido que eu me tornasse sua amante. Mas s consegui enxergar mgoa naquela proposta porque seria um relacionamento 
vazio, sem futuro. Foi ento que descobri que estava esperando um filho seu. Sei que acha que eu deveria ter lhe contado, mas no pude. Sabia que se batesse  sua 
porta e revelasse a verdade, sua imagem pblica correria o risco de ser arruinada. 
        Angus no falou nada, mas uma expresso de impacincia surgiu em seu rosto.
Claro que eu no esperava me deparar com Caroline...
Que tratou logo de falar uma poro de besteiras  completou Angus.
No precisei de Caroline para me convencer de nada  explicou Lisa.  Eu haveria chegado s mesmas concluses com ou sem a interferncia dela. Quando a encontrei, 
eu deduzi de imediato que voc iria saber que eu estava grvida. E quando me pediu em casamento...
        Seu maior pesadelo finalmente se concretizou.
Lisa estreitou os olhos.
        Tem idia de como uma mulher se sente quando recebe uma proposta de casamento baseada em um
senso de obrigao? Sempre imaginei um pedido de casamento como um momento romntico...
Lisa no conseguiu continuar porque seus olhos se encheram de lgrimas, e sua voz comeou a tremer. Teria de se esforar para continuar.
A proposta entre meus pais foi assim  prosseguiu.  Ambos tinham apenas dezoito anos na poca e esperaram at que meu pai terminasse a faculdade para se casarem.
Deve ter sido uma poca muito feliz para os dois. Como eles morreram?
Em um acidente de carro.
Lisa nunca falara sobre aquib. Na ocasio, no tinha ningum ntimo o suficiente, para quem pudesse confessar sua dor. Por isso, guardada a dolorosa lembrana para 
si mesma, em um local bem remoto de seu corao.
        Eles haviam ido  cidade fazer compras. Fiquei em casa, estudando para as provas. O tempo estava muito chuvoso e houve uma coliso contra um caminho. Morreram 
instantaneamente.  Respirou fundo. Meus pais formavam um casal romntico e devo ter herdado essa caracterstica deles. Sempre acreditei que um dia eu encontraria 
algum especial e que minha vida seria to romntica quanto a deles. Em vez disso, porm, meti os ps pelas mos. Alm de me envolver com um desconhecido, fiquei 
esperando um filho dele! A princpio, isso foi terrvel para mim, Angus. Foi um choque muito grande contra tudo aquilo em que eu acreditava.
Ainda assim, seu envolvimento com ele poderia ter sido romntico, pensou Lisa. S que Angus nunca dissera que a amava, por mais que ela houvesse alimentado esperanas 
de que um dia ele o fizesse.
        De qualquer modo, no creio que nada disso seja relevante  disse a ele.  Eu s queria que voc soubesse os motivos que me levaram a pensar com tanto cuidado 
na proposta de casamento.
Houve uma leve movimentao no bercinho, e Emily abriu os olhos preguiosamente. Qual no foi a surpresa de Lisa ao descobrir que ela tinha os mesmos olhos azuis 
do pai.
Lisa apertou o boto que chamava a enfermeira. Teria de alimentar o beb, mas no sabia ao certo como proceder.
Alm disso, precisava que algum mais entrasse no quarto, para desfazer a atmosfsra tensa que se formara entre ela e Angus. Se continuassem a conversar, era bem 
capaz de acabar confessando seus sentimentos, e no era isso o que pretendia.
Aceitaria se casar com Angus, mas nunca diria que o amava. No teria coragem de confessar seu amor sem ser correspondida. Seria humilhante demais.
Quando a enfermeira entrou no quarto, Lisa enrubesceu, ao se dar conta de que provavelmente teria de amamentar Emily diante dele. Mas por que estava com todo aquele 
pudor ridculo? - perguntou-se. Afinal, ele era o pai de sua filha.
Logo depois que Emily comeou a mamar com voracidade, ele disse:
Pensou sobre a proposta e...?
Minha resposta  "sim".
Dizendo isso, Lisa olhou mais uma vez para a filha e sorriu, esperando haver tomado a deciso certa.

CAPTULO X

Lisa no tinha idia de qual seria a reao de Angus. Nunca imaginara esse momento em sua mente. No entanto, s no esperava a falta de reao. Silncio total.
E se ele houvesse mudado de idia?, perguntou-se, sem ousar olh-lo. Concentrou-se em olhar o rostinho coraco da filha. Pelo visto, Emily seria uma "comilona", segundo 
dissera a enfermeira.
Por que Angus no dissera nada? Talvez somente nesse momento a realidade de haver se tornado pai o houvesse atingido. Algumas pessoas reagiam tardiamente a estmulos 
muito fortes.
Ser que fazer o parto da prpria filha o levara a enxergar o quanto sua vida mudaria se ele se casasse e assumisse o papel de pai?
Evitou o olhar de Angus, por receio de ver um sinal de desistncia. Ele estaria lhe oferecendo a liberdade que ela tanto reivindicara, s que Lisa no a queria mais 
No depois de haver se entregado a ele.
Quando Angus a pedira em casamento, ela pensara que a aceitao seria sinnimo de sofrimento, j que teria conviver com aquele por quem se apaixonara e que no correspondia 
ao seu amor.
Porm, depois de tudo que passara, reconheceu que sofrimento seria continuar sozinha naquele apartamento, com seu emprego e sua vida montona. Melhor seria aceitar 
o fato de no ser amada do que viver sem ele.
        Claro que se mudou de idia...  comeou, quebrando o silncio  ...no haver nenhum problema.  Olhou para ele.  Encontraremos alguma outra soluo.
Quando Emily terminou de mamar, Lisa fechou o robe e segurou-a de p junto ao ombro.
        Eu... sinto muito por haver me precipitado, Angus. No levei em considerao a possibilidade de voc haver mudado de idia.
Mas no mudei de idia. Lisa franziu o cenho, confusa.
Ento ainda quer se casar comigo?
Emily soltou o ar do estmago e adormeceu logo em seguida. Lisa colocou-a de volta no bero.
        Quer me dizer por que voc mudou de idia?  perguntou Angus, cruzando os braos.
"Porque no posso viver sem voc!", Lisa sentiu vontade de gritar.
Pensei com calma, s isso. E conclu que era a deciso mais acertada.
E quanto ao amor?
Como voc disse, um casamento bem-sucedido... Bem, muitas pessoas alimentam sonhos durante toda uma vida e, quando se casam, descobrem que a realidade  muito diferente. 
Sei que nosso casamento ser apenas um acordo.
Por que estava sentindo aquele vazio no peito?, Lisa se perguntou. Seria algum efeito ps-parto ou algo do gnero? No ntimo, sabia que no. O que lhe faltava era 
o amor do pai de sua filha.
Como pudera cobrar de si mesma a atitude de algum que no se importava com amor? No fundo, continuava sendo uma romntica incorrigvel.
Angus se aproximou devagar, sentando-se to prximo a ela que seus quadris quase se tocaram.
        H algumas condies que precisamos discutir  declarou ele.  Mas no sei se vai aceit-las.
Lisa comeou a sentir-se mais infeliz a cada minuto. Estava comeando a desconfiar que se tratava mesmo de algum sintoma de depresso ps-parto. Uma das aulas do 
pr-natal havia sido totalmente dedicada quele problema, e ela se lembrava bem dos sintomas: vontade de chorar, angstia...
Queria que Angus no tratasse aquele assunto com tanta frieza. Ser que ele tambm iria pedir que ela assinasse algum documento semelhante a um contrato? Seria 
arrasador demais.
Esforando-se para sorrir, falou:
Sei que no estou acostumada a lidar com pessoas do seu meio, mas com as dicas certas acabarei me acostumando. Prometo que no darei nenhum vexame.
Lisa, eu...
Bem, mas se essas condies se referirem a aventuras extraconjugais...
Quando deu por si, urna lgrima rolou por seu rosto, e ela tratou logo de afast-la.
Lisa, no diga tolices. Ainda  to ingnua...
Eu sei. Tenho conscincia de que no sou uma mulher sofisticada, mas...
Agora pare de falar e olhe para mim  pediu Angus. Quando ela obedeceu, ele continuou:  No sei ao certo como dizer isso... Se no se sentir preparada para aceitar 
minhas condies, estar livre para desistir do casamento, Lisa. A primeira condio  que desista de seu emprego.
Sim, claro. Afinal, terei de cuidar de Emily.
Poderemos morar em Londres, mas somente at encontrarmos uma casa em um local mais tranqilo. No quero criar minha filha em meio  maluquice da cidade grande.
Como quiser.
Poderemos comear a procurar uma casa assim que voc se recuperar do parto. E a segunda condio  que... que comece a tentar gostar de mim.
Lisa estranhou o pedido.
Mas eu j gosto de voc, Angus.
No dessa maneira. O que estou tentando dizer  que...  Ele respirou fundo.  Nunca pensei que fosse dizer isso a algum um dia, mas a questo  que...
Seguiu-se outro silncio.
A questo  que...?  Lisa o incentivou. Angus passou as mos pelos cabelos.
Vou comear de novo, est bem? Ela assentiu, sem conter um sorriso.
        No pensei que fosse ouvir uma histria, mas tudo bem  disse a ele.
Apesar de seu comentrio, Angus continuou srio.
        Lembra-se da ltima vez em que a visitei em um hospital?
Lisa assentiu. Como ela poderia haver esquecido? Aquele acontecimento mudara sua vida completamente! E tambm a mudara como pessoa.
        Bem, no imaginei que a partir daquele dia eu abriria uma porta dentro de mim que nunca mais seria fechada.
Um lampejo de esperana surgiu nos olhos de Lisa. Estaria ela enganada sobre a reao que ele demonstrara a princpio? Amava Angus com toda sua alma, mas nenhuma 
vez o ouvira sequer mencionar que a amava. Nem mesmo nos momentos mais intensos de paixo, quando declaraes daquele tipo se tornavam naturais.
        Voc me intrigou  confessou ele, com um olhar quase de acusao.
Lisa o olhava com ateno, tentando captar o sentido de cada palavra.
        A verdade  que nunca conheci algum como voc antes  declarou ele.  Para mim, voc era uma curiosa mistura de contradies. Inteligente, sensvel, divertida... 
Sa daquele hospital pensando que fosse esquec-la quando passasse pela porta, mas simplesmente no consegui. S Deus sabe o que teria sido de mim se voc houvesse 
recusado aquele passeio.
A cada palavra que ouvia, Lisa sentia sua esperana aumentar ainda mais. No entanto, Angus ainda no dissera o que ela realmente queria ouvir.
        Achei que conseguiria esquec-la se a visse por mais algumas horas. S que o feitio virou contra o feiticeiro. Seu olhar e seu jeito vulnervel foram me 
conquistando cada vez mais. O que eu via em seus olhos era um pedido silencioso para descobrir coisas novas, sentir novas emoes... E era eu quem teria de lhe oferecer 
tudo isso. S que no fazia idia de que acabaria querendo lhe mostrar mais, muito mais.
Lisa sentiu um arrepio pelo corpo. O que Angus estava realmente querendo lhe dizer? Apenas que sentira-se atrado por ela e nada mais?
        No sei se me convenci de que voc representava um desafio. Minha nica certeza era a atrao que sentia por voc.
Dizendo isso, fitou-a nos olhos.
        Entendo.
O desejo que a dominara tambm a deixara surpresa, meses antes.
        Observei muitos detalhes sobre voc durante aquele cruzeiro. Meu olhar a seguia por todos os lugares. Queria conhec-la melhor, saber quais segredos se 
escondiam por trs desses lindos olhos... Mas no foi fcil. A cada passo que eu dava adiante, logo parecia voltar dois! Ento fizemos amor e logo em seguida voc 
declarou que no queria mais nada comigo.
        Eu expliquei o motivo  argumentou Lisa, em um tom de voz defensivo.
Angus sorriu para ela.
Sim, explicou. Achei que estava sendo ingnua demais. Eu estava lhe oferecendo o que nunca havia oferecido a nenhuma mulher antes, e voc no aceitou. Fiquei muito 
ressentido, mas o orgulho foi mais forte. Por isso, deixei que se afastasse de mim. Disse a mim mesmo que ficaria melhor sem t-la por perto, mas minha vida foi 
se tornando um verdadeiro inferno.
Ento descobriu que eu estava grvida.
Sim.
No pareceu muito contente com a notcia.
Minha fria no foi por causa da gravidez, mas pelo fato de voc no haver me procurado.
Garanto que se eu houvesse feito isso, seria chamada de "caadora de fortunas".
No diga tolices. Como se no bastasse, depois disse que no iria se casar comigo. Usei argumentos incontestveis, mas voc nem quis saber e disse que eu estava 
perdendo meu tempo em insistir.
Mudei de idia. Fui para o chal de Paul porque me convenci de que precisava pensar com calma na sua proposta. Mas antes mesmo de chegar l, eu j havia decidido 
aceitar.
        O que nos remete  minha ltima condio.
Lisa j no estava sentindo-se apreensiva. No fazia idia de qual seria aquela ltima condio, mas algo no olhar de Angus a deixou curiosa.
        Sabe o que estou querendo dizer, no?  perguntou ele, inclinando-se ligeiramente na direo dela.
        Eu te amo, Lisa. E espero que se recuse a casar-se comigo apenas por razes prticas, se no puder retribuir meus sentimentos com a mesma intensidade.
Lisa sorriu de pura felicidade. Angus dissera afinal.
        J era tempo de todo meu amor ser correspondido  desabafou ela.
Lisa e Angus ficaram algum tempo de p, do lado de fora da imponente casa pintada de branco. Haviam deixado Emily em Londres, com a bab que costumava olh-la quando 
os dois precisavam sair.
O jardim precisava de reparos, j que, segundo a informao do agente imobilirio, no era tratado havia um ano e meio. Com os retoques necessrios, ficaria belssimo, 
como provavelmente fora no passado.
        O que achou, sra. Hamilton?  perguntou Angus, enlaando o brao pela cintura dela.
Lisa sorriu. Havia seis meses que estavam casados, e ela ainda sentia um delicioso arrepio pelo corpo sempre que Angus a tocava.
        At agora, aprovada  respondeu.
Entraram na casa em seguida. O local precisava de uma boa limpeza, mas estava bem conservado.
        Ela tem personalidade  afirmou Lisa, observando as altas janelas com sacada, lembrando o estilo vitoriano.
No andar de cima, examinaram os sete quartos com ateno. O maior deles tinha uma belssima vista para a parte central do jardim, que se estendia a perder de vista, 
adentrando um bosque.
Acha que conseguir criar razes aqui?  perguntou Angus, abraando-a por trs, diante da janela.
Acho que sim.
Morar em um lugar daqueles com a filha e o marido apaixonado seria a realizao de seu grande sonho romntico.
Virando-se de frente para Angus, enlaou os braos em torno do pescoo dele e ofereceu os lbios com sensualidade. O beijo ardente despertou-lhe desejos que s 
ele tinha o poder de acender em seu corpo.
Seus lbios se curvaram em um sorriso quando ela sentiu a mo de Angus se insinuar por baixo de sua blusa. O fato de estar sem suti, devido ao calor intenso, permeou 
o contato com um delicioso clima de sensualidade.
Encostando-se no batente da janela, deixou que Angus a despisse devagar e foi fazendo o mesmo com ele.
Amaram-se ali mesmo, tendo apenas o jardim e os pssaros como testemunhas. Depois do arrebatamento final, Angus fitou-a nos olhos.
Agora a casa  realmente nossa  murmurou, com um sorriso charmoso.  Acabamos de inaugur-la.
Voc  mesmo incorrigvel, Angus Hamilton  falou Lisa, vestindo a roupa novamente.
S com voc, meu amor.  Minutos depois, saram de mos dadas para a luz do sol.  Fui destinado apenas a voc, e a ningum mais.
 bom mesmo  brincou ela.
Do lado de fora, olharam mais uma vez para a casa. Aquela que agora pertencia a eles. Ali, ela viveria seus mais lindos sonhos, embora soubesse que, com Angus, qualquer 
lugar do mundo seria simplesmente perfeito...

FIM

 

DICAS
O DCIMO QUINTO MS

Desenvolvimento motor e psicolgico

A criana aprende a rabiscar e consegue jogar bola quando est de p. Usa uma cesta ou caixa para carregar seus brinquedos. Evita tudo o que lhe possa causar dor. 
Sentada, ela consegue levantar-se sem ajuda. Anda com segurana e sem ajuda comea a se mover para os lados. Comea a comer sozinha. J no estranha as pessoas. 
Sabe dizer quando vai evacuar ou fazer xixi. Sente a ausncia de uma das pessoas da famlia.
Nessa fase, a maior ocupao da criana  mexer em tudo, experimentando sensaes e acumulando experincias, pois  assim que ela faz seu aprendizado. A criana 
comea a repetir determinadas atividades ou brincadeiras para fixar a habilidade motora. E pede que lhe cantem uma cano ou contem uma histria diversas vezes a 
fim de conseguir memoriz-la e depois repeti-la sozinha.

Alimentao
Esse  um perodo que requer pacincia pois o apetite da criana diminui, e ela tem necessidade de sentir os alimentos com as mos. No se deve for-la a comer, 
nem permitir que coma entre as refeies, para no acentuar ainda mais a inapetncia. Tambm  preciso evitar repetir com muita freqncia um prato que a criana 
aprecia apenas para v-la comer mais, pois ela acabar enjoando e recusando tambm esse alimento.
As refeies podem ser ampliadas no volume de comida e novos sabores introduzidos. O creme de leite, acompanhando frutas frescas ou em compota  permitido em pequenas 
quantidades, uma vez por serrana.  hora tambm de acrescentar massas mais consistentes  alimentao como o espaguete, o talharim e c nhoque.
O peixe continua fazendo parte do cardpio semanal e os molhos de tomate passam a acompanhar os pratos com massa.

CARDPIO I

. Desjejum
(6-7 horas) Mingau de banana
. Lanche
(9-10 horas)
Suco de acerola batido e coado-, com um mnimo.
de acar possvel.
. Almoo
(10-11 horas)
3 colheres (sopa) de arroz
1/2 posta de badejo cozida no vapor acompanhada de molho branco e queijo ralado 
Flan de laranja
. Lanche
(14-15 horas)
Iogurte natural adoado com mel ou gelia de
fruta (laranja ou damasco)
. Jantar
(18-19 horas) Sopa-creme de espinafre
2        colheres da carne usada para o caldo
Torrada
Gelatina
O leite entre 22-23 horas pode e deve ser mantido caso a criana o solicite.

CARDPIO II

. Desjejum
(6-7 horas)
Ma crua ralada, misturada com biscoitos tipo
maisena e um pouco de mel.
. Lanche
(9-10 horas)
Suco de beterraba crua, batida, coada e com o mnimo de acar possvel.
. Almoo
(10-11 horas)
3        colheres (sopa) de nhoque de ricota
com molho de tomate 2 colheres (sopa) de carne bovina moda Pudim de ma com biscoitos
     . Lanche
(14-15 horas) Creme de abacate
. Jantar
(18-19 horas)
Canja de galinha com cenoura, chuchu e
1 colher (sopa) de queijo tipo minas ralado Torrada Compota de pra.

CARDPIO III

. Desjejum
(6-7 horas)
fatia de mamo papaia
torradas com requeijo cremoso
. Almoo
(10-11 horas)
Suco de laranja com o mnimo de acar possvel
. Lanche
(14-15 horas)
Queijo fresco e doce de leite
. Jantar
(18-19 horas)
3        colheres (sopa) de pur de batata
2 colheres (sopa) de carne moda com molho de tomate Ma crua

O leite entre 22-23 horas pode e deve ser mantido caso a criana o solicite.
 

RECEITAS

Nhoque de ricota

400 g de ricota fresca
1        ovo inteiro batido
sal
farinha de trigo leo

Amasse a ricota com um garfo, junte o ovo, uma pitada de sal e v acrescentando farinha e misturando at que a massa "ligue" e se solte das mos. Coloque-a sobre 
uma superfcie enfarinhada e divida-a em pores. Enrole cada poro como um cordo e corte os nhoques. Leve uma panela com gua e um fio de leo ao fogo e espere 
levantar fervura. Jogue os nhoques na gua fervente e deixe cozinhar at que subam  tona. Ento retire-os com uma escumadeira e coloque no escorredor. Em seguida, 
passe a massa cozida para uma forma refratria.

Sopa de couve-flor

1/2 couve-flor mdia
2        xcaras de gua fervente
1 colher (sobremesa) de margarina
1 rodela de cebola
xcara de leite quente
colheres (sopa) rasas de farinha de trigo sal
1 colher de queijo tipo minas ralado fino 1 gema ligeiramente batida

Cozinhe a couve-flor em gua fervente, mantendo a panela destampada, at que fique macia. Ento escorra (reserve a gua), amasse com o garfo e passe a pela peneira. 
Junte a gua do cozimento reservada e o leite, misture e reserve. Leve uma panela ao fogo com a margarina e a fatia de cebola bem picada. Deixe fritar at a cebola 
fique macia, mas sem dourar. Junte a farinha de trigo e uma pitada de sal, misturando bem. Adicione, aos poucos, a massa de couve-flor ao leite, mexendo sem parar. 
Cozinhe por mais uns 5 minutos. Despeje sobre a gema e mexa bem. Espalhe o queijo ralado por cima e espere esfriar para servir.


Caldo bsico de carne ou galinha

150 g de carne bovina ou de frango sal

Coloque a carne e uma pitada de sal numa panela com 4 xcaras de gua e cozinhe at que a carne fique macia. Se necessrio, adicione mais um pouco de gua. Retire 
a carne para usar na alimentao do beb e empregue o caldo em outras receitas.

Creme de espinafre

1/2 mao de espinafre
2 xcaras de caldo de galinha ou carne (receita anterior)
1 colher (sobremesa) de margarina
1 colher (sopa) rasa de farinha de trigo
sal
1 xcara de leite quente

Escolha o espinafre e lave as folhas muito bem. Coloque numa panela com um pouco de gua e cozinhe at que esteja macio. Escorra (reserve a gua) amasse com o garfo 
e passe pela peneira. Junte a gua do cozimento e o caldo de galinha ou carne e reserva i*    ~ fno-n* com a margarina e adicione ?* Leve uma panela ao fogo cum 
o*. "ioi6* a farinha de trigo e uma pitada de sal, misturando bem. Depois, junte o leite, aos poucos e mexendo sem parar, e cozinhe por um minuto. Ento acrescente 
a mistura de espinafre e espere aquecer ate o ponto de fervura. Deixe esfriar antes de oferecer ao beb.

Pudim de ma e biscoito

3 mas cidas
1/2 xcara de suco de laranja
1/4 xcara de acar
I        colher (sobremesa) de acar
II        biscoitos tipo maisena
1 colher (sopa) de margarina

Descasque as mas, elimine as ^>"* em pedaos. Coloque numa panela com 1/2 xcara de Suo* suco de laranja e leve ao fogo para cozinhar at que a ma amolea 
ligeiramente. Adoce com 1 colher (sopa) de acar e despeje numa forma refratria pequena e rasa. Bata os biscoitos no liquidificador at pulveriz-los. Misture 
com o restante do acar e espalhe sobre a ma na forma. Corte a margarina em pedacinhos e distribua-os sobre a forma. Asse em forno moderado at que a superfcie 
comece a dourar. Deixe esfriar e leve  geladeira. Retire alguns minutos antes de servir.

Molho branco

1 colher (caf) de margarina
1 colher (caf) de cebola ralada
1 colher (sopa) de farinha de trigo
sal
1 xcara de leite

Leve a margarina e a cebola ao fogo numa panela e deixe fritar at a cebola amaciar, sem corar. Junte a farinha e uma pitada de sal e misture muito bem. Adicione 
o leite aos poucos e cozinhe por mais alguns minutos.

Caldo bsico de feijo

100 g de feijo azuki ou feijo preto

Coloque o feijo de molho em gua e deixe por 10 horas. Passado esse tempo, leve ao fogo em panela de presso e cozinhe at que os gros fiquem bem macios. Ento, 
escorra (reserve o caldo do cozimento) e passe pelo espremedor de batatas, ou amasse com o garfo e passe pela peneira. Adicione o caldo reservado e empregue. O 
caldo do feijo tambm pode servir de base para sopas, acrescido de legumes e macarro mido.
Nota: Se preferir pode usar essa preparao em forma de pur. Nesse caso, tempere-a e dispense o caldo do cozimento.


Cuidados para evitar acidentes

Como a criana costuma pegar tudo o que os adultos usam,  preciso ficar atento a facas, canivetes e tesouras, que devem ser guardados em lugares inacessveis.
Notas sobre o beb
Essa  uma fase em que as crianas imitam os pais em tudo: atendem o telefone, fingem que esto dirigindo um carro, pegam uma vassoura e tentam varrer o cho. Isso 
amplia sua capacidade motora e seu aprendizado. A criana prefere tambm o mtodo da tentativa e do erro, esforando-se por repetir uma ao at acertar; os adultos 
podem orient-las, mas no devem ajud-las.
As crianas precisam de muito exerccio fsico; caminhar, brincar com areia ou no parque so os mais recomendados.
s vezes, durante uma brincadeira, a criana cai ou se machuca e passa a ter medo, evitando voltar  atividade em que se machucou. Os pais devem incentiv-la a perder 
o medo, mas sem pression-la.

O sono do beb
Idade: 15 aos 18 meses 
Diurno: 2 horas aps o almoo 
Noturno: 10-12 horas

O desenvolvimento do beb

15e MS        MENINOS        MENINAS
COMPLETO
Peso        10,6 kg        10,4 kg
Estatura        77 cm        76 cm
Permetro ceflico        47,5 cm        46,5 cm
Permetro torxico        48,5 cm        47,5 cm
Aumento mensal
do peso                              200 g        200 g
OBS: Esses valores so relativos, podendo apresentar pequenas variaes.

Vacinao do ms:
 MMR, que imuniza contra sarampo, caxumba e rubola.

Dentio

O beb pode apresentar de 12 a 14 dentes: 2 incisivos medianos inferiores, 2 superiores; 2 incisivos laterais superiores e 2 inferiores; 2 molares superiores e 
2 molares inferiores. Nessa fase comeam a surgir os pr-molares.


CATHY WILLIAMS foi nascida e criada na ilha de Trinidade, gmea da ilha de Tobago. Ganhou uma bolsa de estudos e se graduou na Gr-Bretanha, chegando  Exeter University, 
em 1975, para continuar seus estudos sobre as maiores paixes de sua vida: lngua e literatura. Foi ali que Cathy conheceu seu marido, Richard. Desde que se casaram, 
os dois passaram a morar na Inglaterra, primeiro em Thames Valley e atualmente em Midlands. Cathy e Richard tm duas filhas.
